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90 anos de história do Sr. Rock & Roll, o lendário Chuck Berry

22 de março de 2017, por Alex Valenzi
Música

“Chuck Berry foi o maior praticante da guitarra de Rock & Roll, e o maior e mais puro compositor de Rock & Roll que já viveu” – Bruce Springsteen

“De coração partido com a morte de Chuck, ele foi indiscutivelmente o Rei” – Slash

“Você e o Elvis são muito bons, mas Rock & Roll mesmo é o Chuck Berry” – Mãe de Jerry Lee Lewis

Um dos maiores gênios do rock ‘n roll, Chuck Berry faleceu no último sábado, 18 de março, aos 90 anos, sendo encontrado sem vida em sua casa no Missouri. Numa carreira de mais de 70 anos, o guitarrista, que influenciou gerações, ganhou inúmeros prêmios, incluindo dois Grammies (para sua trajetória de vida e para a música Johnny B. Good), além de vários discos de ouro, platina e diamante.

Chuck Berry nasceu Charles Edward Anderson, em St. Louis, Missouri, em 1926. De uma família afroamericana de classe média, começou a se interessar pela música muito jovem e fez sua primeira aparição na escola Summer High School. Ainda no ensino médio teve problemas com a polícia e cumpriu uma sentença por roubo levado pelas más companhias, em 1944. Segundo Berry, em sua autobiografia, seu carro quebrou e ele e seus amigos roubaram um veículo que estava de passagem com uma pistola de brinquedo.

No reformatório para garotos em Algoa, perto da cidade de Jefferson, Missouri, ele formou um quarteto vocal. O grupo tornou-se competente o bastante que as autoridades permitiram que eles se apresentassem fora da facilidade de detenção. Berry foi liberado do reformatório em seu 21º aniversário, em 1947.

Foto: Reprodução

Foto: Reprodução

Em 28 de outubro de 1948 casou-se com Themetta “Toddy” Suggs e arranjou emprego em uma montadora de automóveis e, em seguida, como zelador do prédio onde moravam. Em 1950, Toddy Berry deu a luz à primeira filha do casal, Ingrid Berry. Ainda em 1950 formou-se em esteticista e começou a ganhar dinheiro suficiente para comprar uma casa própria – hoje tombada pelo patrimônio histórico.

No início dos anos 50, Chuck começou a tocar em bandas locais de St.Louis para aumentar o orçamento da família. O músico vinha aprendendo guitarra desde adolescente, inspirado por lendas como T. Bone Walker e Carl Hogan (guitarrista de Louis Jordan), além de fazer aulas com Ira Harris.

Em 1953, Berry começou uma longa relação musical com o pianista Johnnie Johnson, numa banda que tocava blues e baladas, mas, como a música popular predominante entre a população branca americana era mesmo o country, então, decidiu começar a tocar canções de country também para o público negro, que estranhou um pouco no começo, mas acabou gostando.

Chuck e sua esposa em 1972 (Foto: Reprodução)

Chuck e sua esposa em 1972 (Foto: Reprodução)

A visita à Chicago mudaria a vida de Chuck Berry

O estilo único como showman, aliado ao repertório de R&B e Hillbilly, cantado no estilo de Nat Cole, com a pegada de Muddy Waters, começou a fazer barulho e atrair a plateia, predominantemente branca e influente. Em maio de 1955, Chuck viajou para Chicago onde encontrou Muddy Waters, que o apresentou aos Chess Brothers, da gravadora Chess Records.

A adaptação do velho hillbilly, Ida Red (de Bob Wills), que viraria Maybellene, agradou aos visionários irmãos Chess que gravaram essa canção e o blues Wee Wee Hours. As duas músicas foram lançadas no primeiro compacto de Chuck, em julho de 1955, e chegaram ao quinto lugar na parada Pop e primeiro na parada R&B, tendo vendido um milhão no final de 1955. A partir daí, ninguém mais segurava Chuck Berry, com uma sucessão de compactos de sucesso, filmes, apresentações e turnês.

Entre os verdadeiros hinos que Chuck gravou e escreveu após Maybellene:

– Thirty Days – 8° do R&B em 1956
– Roll Over Beethoven – 7° do R&B em 1956, gravada por inúmeros músicos, como Jerry Lee, Beatles e Iron Maiden.
– Brown Eyed Handsome Man – 8° do R&B em 1957
– School Days – 3° do Pop em 1957, um dos maiores hits dele
– Rock & Roll Music – 6° do R&B em 1958, sucesso com os Beatles também.
– Sweet Little Sixteen – 1° do R&B e 2° do Pop em 1958, sucesso também com os Beach Boys com a nova letra Surfin USA
– Johnny B Good – 5° do R&B e 9° do Pop em 1958
– Carol – 9° do R&B em 1958, 3 gravada por Beatles & Rolling Stones
– Almost Grown – 3° do R&B em 1959, com participação dos jovens Marvin Gaye e Etta James nos backing vocals
– Back in the USA – 16° do R&B em 1964
– Nadine – 7° do R&B em 1964
– No Particular Place To Go – 10° Pop em 1964
– You Never Can Tell – 14° Pop em 1964, retornou às paradas por conta da inclusão na famosa cena do filme Pulp Fiction
– My Ding a Ling – música antiga de Dave Bartholomew, que foi gravada por Chuck ao vivo em Londres em 1972 e foi direto para o primeiro lugar da parada Pop por 2 semanas. Ironicamente, o maior sucesso de Chuck e o único não escrito por ele, e que ele não gostava muito.

Além dos hits, Chuck Berry ainda compôs muitas canções que foram sucesso com outros cantores, como Memphis Tennesse (Johnny Rivers e Elvis Presley) e Camon’ (Rolling Stones). Curiosidade é que Chuck gravou sua versão em dueto com a esposa (Toddy Berry) de Promised Land (Elvis), Rellin & Rockin’, Let it Rock, You can’t catch me, Havana Moon, entre outras.

UNIVERSO RETRÔ NO SPOTIFY

Para relembrar esses e outros sucessos de Chuck Berry, criamos a playlist Sr. Rock & Roll no Spotify. Ouça a seguir:

chuck

Chuck também participou de vários filmes e programas de tv; ao todo foram mais de 80. Entre eles: Rock Rock Rock (1956), This could be the night (1957), Mister Rock & Roll (1957), Go Johnny Go (1959), Let the good times roll (documentário) e Hail Hail Rock & Roll 1987 (documentário).

Além dos TV Shows, como American Bandstand, Shindig, Hollywood a Go Go, John Lennon & Plastic Ono band, Top of The Pops, Sonny & Cher Show, Shan Na Na show e Dave Lettermann. E vários prêmios como Grammys, Apollo Hall of fame, American Music Master Award, Kennedy Award e Polar music award, entre outros.

Chuck gravou pela Chess Records de 1955 a 1966, Mercury Records de 1966 a 1969, Intermediate em 1969 (ao vivo), Chess novamente de 1969 a 1975, e em 1979 gravou seu último disco, Rock it, pela Atlantic Records. De lá para cá, lançou também vários álbuns ao vivo e realizou várias gravações ao longo dos anos no estúdio Berry Park (seu imenso rancho em St. Charles, Missouri), que há vários anos vêm prometendo serem lançadas.

Foto: Reprodução

Foto: Reprodução

Chuck Berry muito além das estradas da Rota 66

Chuck nunca parou de tocar pelo mundo à fora, normalmente com bandas locais, mas quase sempre acompanhado pela talentosa filha, a cantora e gaitista Ingrid Berry, e o baixista e amigo Jimmy Marsala, que foi também vítima de alguns escândalos envolvendo a travessia de fronteira estadual com uma mulher menor de idade; cumpriu pena, mesmo nunca sendo comprovada sua culpa.

O americano esteve em terras brasileiras inúmeras vezes, desde 1993, sempre com casa lotada. A curiosidade é que, na primeira vez, esqueceu a guitarra e usou a Gibson de Marcelo Nova. Além assistir aos shows no Brasil, tive o privilégio de conhecê-lo pessoalmente em 2008, quando participamos do Summer Jamboree Festival, em Senigallia, Itália.

Chuck com a guitarra de Marcelo Nova (Foto: Reprodução)

Chuck com a guitarra de Marcelo Nova (Foto: Reprodução)

Estive ao lado dele e de sua banda (a partir dos anos 2000, ele começou a levar sua própria banda em turnês, incluindo, Jimmy, Ingrid e seu filho Jr. na guitarra base). Numa experiência sensacional, pude conferir um dos melhores shows ao vivo do músico. Todos foram muito legais comigo, Chuck ainda estava com a saúde boa, bom humor e fez uma apresentação muito legal.

Chuck tocou por muitos anos mensalmente (totalizando mais de 200 apresentações), no Duck Room (em homenagem ao famoso passo Duck Walk de Chuck) da casa Blueberry Hill, em St.Louis. Por lá podia-se ver Chuck no quintal de casa, se divertindo. Ele fez sua despedida dos palcos em 15 de outubro de 2015, 3 dias antes de completar 88 anos. Já adoentado, o guitarrista fez questão de subir ao palco e fazer aquilo que mais amava pela última vez; felizes os que lá estavam.

Os últimos anos de vida do astro

Mr. Berry passou os últimos dois anos de sua vida em reclusão na sua adorada Berry Park, cercado de todo o carinho e conforto de sua esposa, com quem foi casado por 69 anos, e dos filhos Ingrid, Charles, Jr., que fazem parte do álbum a ser lançado, além de Melody e Aloha Isa, netos e familiares.

Ele veio a falecer no último sábado, aos 90, sendo encontrado sem vida em seu quarto, em decorrência de um provável ataque cardíaco. O homem se foi, porém sua obra está eternizada. Sempre que alguém empunhar uma guitarra para tocar um rock ‘n roll estará levando um pouco do Sr. Rock & Roll para muitas gerações que virão. O maior poeta que a história da música popular americana já conheceu, e que, como disse John Lennon, “se o Rock & Roll tivesse outro nome seria Chuck Berry”.

chuck

Foto: Reprodução

Discografia sugerida:

Chuck Berry – Rock & Roll Music Any Old Way You Choose It (Tudo que Chuck gravou, exceto o último disco) em 16 CDs e um belo livro) – Bear Family Records

Chuck Berry – The definitive collection 30 songs – Geffen Records

Chuck Berry – The great 21 – MCA

Chuck Berry The absolute essential 3 cds – Proper Records

DVD Hail Hail Rock & Roll Special Edition com 4 DVDs recheados de extras do aclamado documentário

“Nos anos 50 havia cidades nas quais não podíamos entrar em ônibus. Agora temos a possibilidade de eleger um negro para a Presidência dos EUA. Graças a Deus, finalmente estamos livres” – Chuck Berry

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