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A história por trás da documentário ‘Divinas Divas’ de Leandra Leal

26 de junho de 2017, por Márcia Tirésias
Cinema & TV
Divinas Divas

Na última quinta-feira (22), estreou no Brasil o filme Divinas Divas, de Leandra Leal. É um documentário que fala de oito artistas travestis que faziam shows no Teatro Rival do Rio de Janeiro (pertencente à família de Leandra) nos anos 60 e 70. Rogéria, Jane Di Castro, Marquesa, Eloína dos Leopardos, Divina Valéria, Camille K, Fujika de Holliday e Brigitte de Búzios, já idosas, são as estrelas.

Para entender a origem do filme, vale a pena recuar para a década passada. Em 2004, para celebrar 70 anos da fundação do teatro, foi organizado um espetáculo chamado Divinas Divas, com todas as travestis mencionadas acima. A escolha do tema não foi por acaso: era uma homenagem àquelas artistas que sustentaram o funcionamento do Teatro Rival em alguns de seus piores anos, no auge da ditadura militar.

Divinas Divas

Capa do documentário (Foto: Divulgação)

O espetáculo comemorativo fez enorme sucesso e durou dez anos. Em 2014 foi realizado o derradeiro show, com um número musical diferente e inovador. Aproveitando o momento, a diretora Leandra Leal, já proprietária da casa, decidiu rodar um documentário focando na preparação do último espetáculo e também na vida e carreira de cada uma das travestis. Nascia então, ali, o filme Divinas Divas.

O resultado é um trabalho comovente. As artistas contam sobre suas vidas, relembrando os momentos de glória da carreira, a difícil convivência com os familiares, seus amores e a repressão da ditadura. O processo de envelhecimento delas, retratado no filme, evoca no público a dor da passagem do tempo. Por outro lado, passa também uma mensagem de esperança: afinal, é possível sobreviver e envelhecer com dignidade, mesmo sendo homossexual, travesti, mesmo sendo diferente.

A própria diretora, Leandra Leal, converte-se em personagem e recorda com carinho de momentos da sua infância, quando perambulava pelos bastidores do teatro e se maravilhava com a performance das travestis. De fato, o afeto da diretora pelas personagens transborda em todo o filme.

Além disso, o documentário exibe trechos dos shows, evidenciando o valor artísticos das apresentações. O termo Divas não é condescendente. É de impressionar ver senhoras de mais de 70 anos exibirem belas vozes, controle corporal e presença de palco. Se há algo que faltou no filme, é uma explicação mais clara da época em que as travestis “salvaram” o Teatro Rival do fechamento. Por que aquele período foi tão complicado? Qual a diferença com os dias de hoje?

A DITADURA MILITAR E O FIM DO TEATRO DE REVISTA

Eloisa dos Leopardos

Eloína dos Leopardos (Foto: Reprodução)

No final dos anos 60, devido à marcação cerrada da censura governamental, o irônico e contestador Teatro de Revista estava praticamente extinto. Não se podia mais fazer piadas com os governantes. A concorrência com o cinema e a nascente televisão corroeram a presença do público e a ditadura foi a pá de cal.

A única opção de sobrevivência para o Rival foram os shows de travestis, sempre bons de público e sem críticas políticas, o que não criava problemas com a censura. Foi graças a eles que o teatro conseguiu atravessar todo o período da ditadura e seguir funcionando até hoje.

De fato, não apenas o Teatro Rival, mas vários outros mantiveram os espetáculos vivos graças às travestis. As vedetes desapareceram e deram lugar a estes personagens. Mesmo após o fim do Teatro de Revista, os shows do tipo burlesco se perpetuaram pelas apresentações de travestis durante todas as décadas de 60, 70, 80 e 90.

COMO ERAM TRATADAS AS TRAVESTIS NA ÉPOCA

No filme Divinas Divas, Jane Di Castro, Divina Valéria e Eloína comentam sobre prisões e abordagens feitas por policiais. Jane comenta que chegou a ser espancada. Se elas faziam tamanho sucesso no teatro, por que eram presas na rua?

Prisão de travesti

Prisão de travesti (Foto: Juca Martins)

A resposta é que o Estado era relativamente tolerante com essas pessoas, desde que não saíssem de seu gueto. Segundo a legislação da época, vestir-se com roupas do sexo oposto era considerado por si só um crime e andar dessa forma nas ruas poderia ser enquadrado como crime de “vadiagem”.

Se hoje uma travesti pode tranquilamente tomar café com suas amigas e comprar bijuterias no shopping center, naquela época ir a pé ao mercado poderia render uma prisão. Divina Valéria, por exemplo, conta no filme que sabia da proibição, mas não havia o que fazer. Afinal, ela não tinha como se vestir de outra maneira, pois era uma mulher. E foi presa repetidas vezes. Como de praxe, homofobia caminhava de mãos dadas com atração sexual reprimida: Divina Valéria também conta no filme que algumas vezes tinha que passar horas respondendo a perguntas dos policiais sobre detalhes de sua vida íntima, seu sexo biológico e sexualidade.

Libertem os Travestis

Protesto da sociedade civil contra a Operação Anti-LGBT da polícia de São Paulo, em 1980 (Foto: Reprodução)

O governo, muitas vezes com a aprovação silenciosa da classe média conservadora, chegava a elaborar planos complexos custeados com dinheiro público, com o único objetivo de eliminar travestis de bairros residenciais. Em 1980, por exemplo, o jornal Estado de São Paulo divulgou um “plano estratégico” da polícia que compreendia a retirada completa das travestis das ruas, o reforço do efetivo da Delegacia de Vadiagem do DEIC e até mesmo a construção de um prédio-prisão. Além disso, haveria a definição de “áreas específicas” da cidade para colocar todas as travestis juntas. Algo muito parecido com o que está sendo feito com a Cracolândia hoje em dia.

OS MANICÔMIOS

Em uma das passagens mais tristes do filme, a travesti Marquesa conta que, na manhã seguinte a um espetáculo de enorme repercussão, sua mãe decidiu interná-la em um manicômio.

Manicômio de Juquery

Parte externa do Manicômio de Juquery (Foto: Último Segundo)

A prática não era incomum. Em uma época de intenso conservadorismo e falta de informação garantida pela censura, homossexuais e travestis eram considerados loucos por seus familiares. Nos Estados Unidos, a homossexualidade deixou de ser considerada doença no início da década de 70, mas a novidade demorou a chegar no Brasil. Muitas famílias, desesperadas pela “doença” dos filhos ou ansiosas por se livrar de alguém que lhes causava vergonha ante a sociedade, internavam os jovens homossexuais nestas instituições. Os Manicômios de Juquery e Barbacena eram os destinos mais frequentes.

DITADURA À BRASILEIRA NÃO É PARA SE LEVAR MUITO A SÉRIO

Mas, considerando a moralidade ambígua da ditadura à brasileira, não dá para se levar tudo muito a sério. No cenário complexo de uma cultura onde ter um patrimônio ou ter um padrinho pode fazer muita diferença, uma “virtude” podia cancelar um “vício”.

Por exemplo, se alguém possuía o “vício” da homossexualidade ou travestismo, isso poderia ser compensado com a “virtude” da riqueza ou de ter amigos influentes. Como Fernando Gabeira conta no livro “O Que É Isso, Companheiro?”, a ditadura perseguiu os homossexuais POBRES.

Isso ajudar a explicar porque Rogéria desfrutou de tanta tranquilidade em um período tão complicado. Ela tinha amigos e contatos influentes no meio artístico e especialmente na TV, como Agildo Ribeiro. Isso lhe permitia participar de especiais musicais, programas de auditório, dar e fazer entrevistas, tão logo a censura começou a relaxar, no final dos anos 70. Ela sempre tomava o cuidado de ser apolítica, como forma de evitar problemas com os militares. E sua irreverência a tornava uma figura cativante para o público.

Rogéria quando jovem

Rogéria quando jovem (Foto: Divulgação)

Se o governo prendia travestis nas ruas, também permitia com certa tranquilidade uma travesti debochada na TV Globo. Se a classe média conservadora aplaudia a polícia que eliminava as travestis de seus bairros, também se deliciava em ver a Rogéria cantando e dançando na sala de jantar. Como a própria Rogéria diz no filme: “eu sou a travesti da família brasileira”.

Assista o trailler:

A trilha sonora do filme também está demais! E você pode ouvir no Spotify no perfil da Vitrine Filmes.

2 Responses

  1. Jacqueline

    Vi,no You Tube,um show da Divina Valéria e fiquei chocada com o talento dela.
    Ela é um a diva na Argentina e Uruguai,enquanto no Brasil(antes do filme Divinas Divas)era desconhecida do grande público,mas muito conhecida na classe artística.
    Nesse show que vi no You Tube,ela conta as histórias dela com seus amigos e canta.
    Há um disco que ela gravou nos anos 60,que mostra,na capa, Valéria montada e desmontada.
    Por fim,torço para que Rogéria melhore o mais rápido possível.

    1. Jacqueline

      Sinto muito pela morte de Rogéria.
      Nossas referência estão falecendo e os artistas atuais,com algumas exceções,não possuem o mesmo talento.Só querem “causar”,ter curtidas,criar polêmica.Chegam até a dizer que não gostam de ler.
      O que me consola é que ela não morreu no ostracismo.Estava trabalhando e dando entrevistas.
      Creio que a melhor homenagem que devemos fazer a ela,além de sempre nos lembrarmos dela,é não deixarmos o glamour
      acabar.

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