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Documentário “Jonas e o Circo Sem Lona” contrapõe fantasias e realidade de menino circense

6 de abril de 2017, por Jane Galaxie
Cinema & TV

Jonas e o Circo Sem Lona mal entrou em cartaz nos cinemas brasileiros e já é destaque de público e crítica. Isso porque este “docudrama” (drama documentário) nacional traz uma história tocante que consegue equilibrar com maestria o macro e o micro. A dicotomia, inclusive, é algo muito presente no longa, que também contrapõe o popular e o erudito, o crescer e o ser criança, o real e a ficção. Com uma visão focada, o filme, no entanto, fala por um todo.

Em aproximadamente 80 minutos de duração, o longa dirigido por Paula Gomes retrata a história do menino Jonas que, filho e neto de artistas circenses, decide montar um circo improvisado com a ajuda de seus amigos no local onde mora, a periferia de uma cidade na Bahia. Ao primeiro olhar, essa trama pode parecer um conto lúdico sobre uma criança brincando, mas logo se percebe que tudo é muito mais profundo.

Foto: Divulgação

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Jonas deseja seguir a “tradição” da família e planeja abandonar a escola para se juntar ao circo onde seu tio trabalha; em contrapartida, a mãe do garoto busca mantê-lo nos estudos (que ele constantemente questiona e negligência durante o longa), pois, assim, terá um futuro melhor, longe da pobreza que ela sabe advir do trabalho em um circo.

Aqui, nesse conflito, é que estão contidas as grandes temáticas do filme. O sonho de infância versus sacrificar esse desejo em prol de um futuro melhor; a atenção que o garoto dá ao seu circo da cidade (no qual ele coordena os números, prepara os figurinos, a música e controla os ingressos, enfim, age com organização e disciplina impecáveis), sobrepondo seu descaso com os estudos clássicos.

Foto: Divulgação

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Além disso, ao contar esse conto comum sobre pessoas que não necessariamente têm características marcantes ou “dignas de um filme”, a diretora Paula Gomes transforma essa história bastante particular em algo que representa questões muito maiores. A criança que começa a vislumbrar os desafios da vida adulta (Jonas tem 13 anos, no limiar entre infância e adolescência); a dificuldade de ser artista no Brasil; o conflito entre o erudito/tradicional e aquilo que é considerado fora do padrão; a pobreza enraizada com o desejo de uma vida melhor. Nisso está a parte “docu” desse docudrama.

Já o drama fica por conta de algumas encenações e entrevistas – especialmente no ato final do longa –, que deixam claro que as pessoas ali apresentam uma versão melhorada (e menos espontânea e verdadeira) de si mesmas. No entanto, a diretora não se abstém disso. Ao contrário, utiliza essa linha tênue entre real e ficção como parte da sua linguagem, tendo, inclusive, total noção de que a chegada da sua equipe de filmagem traria mudanças na pequena cidade, e essas mudanças não são ignoradas.

Foto: Divulgação

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A relação de confiança entre a diretora (que aparece apenas com sua mão e sua voz, mesmo com o documentário não tendo nenhuma forma de narração off), os personagens e a história é muito próxima. Como ela mesma diz, em determinado ponto, o circo de Jonas e o projeto de produzir esse filme são muito parecidos, pois ela também tenta criar arte com poucos recursos. Mais um ponto para a metalinguagem do longa metragem.

Paula Gomes vai ainda mais além e se torna agente da história que conta, pedindo à mãe de Jonas que deixe-o se juntar ao circo. Dessa forma, aprofunda mais uma das temáticas de “Jonas e o Circo Sem Lona”: o real e o encenado entrelaçados. Assim, essa produção audiovisual traz uma série de subtextos envoltos em uma história cativante com final tocante. Ou seja, uma verdadeira fórmula para garantir qualidade e sucesso ao projeto.

Foto: Divulgação

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Para completar, tudo isso é unido a aspectos técnicos impecáveis: fotografia que aproveita ao máximo a iluminação natural; montagem ágil e simples; direção com uma linguagem clara e adequada, de enquadramentos milimétricos e foco sempre em Jonas. Esses cuidados fizeram do filme um sucesso de premiações (nove, no total) em grandes festivais. Vencendo grandes prêmios no ano passado, como o TFI Arts Fund, concedido pelo Tribeca Film Institute (NYC, EUA), e o Prêmio do Público no Festival Cinélatino Reencontres de Toulouse.

A história do menino Jonas pode ser considerada presença garantida nas celebrações da sétima arte em 2017 e, inclusive, vir a figurar entre as grandes produções do cinema nacional e latino-americano, povoando coleções do nosso Cinema, como o  . Assista abaixo ao trailer de Jonas e o Circo Sem Lona:

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