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‘Loki?’ – Álbum clássico de Arnaldo Baptista retorna às prateleiras do Brasil

8 de março de 2017, por Lucas Vieira
Música
Loki?

Depois de gravar o progressivo O A e o Z em 1973, Arnaldo Baptista resolveu debandar d’Os Mutantes. Membro fundador e vórtex criativo da banda que deu identidade brasileira ao som do rock n’roll, Arnaldo foi baixista, tecladista e ocasionalmente vocalista do grupo que formou com seu irmão Sérgio Dias e com a diva Rita Lee. Após ter um box com toda a sua discografia lançado em CD em 2015, agora é a hora e a vez de seu álbum mais cultuado, Loki?, ser reeditado em vinil, em uma edição especial.

Lançado em 1974, quando Arnaldo passava um período em que estava muito deprimido, o resultado de Lóki? é uma intersecção entre a bossa-nova, o soul e o rock. Com seus antigos parceiros de banda Dinho Leme (bateria) e Liminha (baixo), Arnaldo gravou um disco onde se despiu totalmente: é o registro de um homem amargurado remoendo seus erros, suas perdas, seus delírios. É um álbum muito pessoal e inspirado.

Os Mutantes começaram a acabar com a até hoje não definida expulsão ou saída de Rita Lee da banda. O que estava diretamente ligado ao fim do relacionamento entre Arnaldo e ela. O tecladista caiu em profunda depressão com o término – seu humor e seu comportamento mudaram e o uso de drogas era constante.

Os Mutantes

Anos 60: Arnaldo (centro) ensaiando “É Proibido Proibir” com os Mutantes, Caetano Veloso e o o hippie americano Johnny Dandurand (Foto: Reprodução)

No filme de Paulo Henrique Fontenelle (2009) de mesmo nome do disco, sobre a vida de Arnaldo, o artista plástico e amigo do músico, Antonio Peticov, conta que o mutante foi passar uma semana com ele em Firenze, na Itália, e durante sete dias ficou compondo em seu piano elétrico. Eram as músicas que entrariam em Loki?. Mas, ao fim da viagem, o músico revelou o real motivo da visita: queria que o amigo fosse capitão do disco voador que ele iria construir.

A consequência de todas essas nuvens negras na vida de Arnaldo foi um álbum que se provou inesquecível. O disco de fossa definitivo do rock nacional. Em uma época que o vilão da Marvel não era ainda muito popular no Brasil, a palavra “Loki” era uma gíria comum para definir o sujeito “com idéias ou posições, frequentemente tidas por amalucadas, pois trata-se da contração da palavra ‘LOUCO’”, como diz o Dicionário inFormal.

Quem aceitou a empreitada de gravar o LP foi Roberto Menescal, que buscou realizá-lo da forma que Arnaldo queria. O tecladista almejava a máxima urgência no disco e não permitiu aos amigos repetir faixas, regravar instrumentos. Era tudo de primeiro take. A música de Loki? saiu com a mesma sinceridade das letras. Quem fez os arranjos para orquestra foi o mago tropicalista Rogério Duprat e a capa nasceu a partir de um clique de Leila Lisboa Sznelwar.

O virtuosismo de Arnaldo como tecladista

O virtuosismo de Arnaldo como tecladista apareceu em Loki? na faixa “Honky Tonky (Patrulha do Espaço)” (Foto: Leila Lisboa Sznelwar)

O álbum traz também um encontro histórico: foi a última vez que mais integrantes da formação clássica se reuniram em estúdio. Além de Arnaldo e dos já citados Dinho e Liminha, Rita gravou os backing vocals de duas canções: “Não Estou Nem Aí” e “Vou Me Afundar Na Lingerie”. Só faltou Sérgio, o que pode ser explicado pelo fato de Loki? não ter guitarras, apenas um violão de 12 cordas tocado pelo próprio Arnaldo.

Com “Será Que Eu Vou Virar Bolor?”, o mutante se questiona sobre materialismo, revelando aquela saudade do passado de quem acaba de perder algo, de sair de um momento em que era feliz e se agarra a esse pretérito. Junte isso ao medo de “virar bolor” – uma metáfora sobre ficar estagnado, não sair do lugar, até que crie uma camada asquerosa e verde de mofo sobre si. Lembra o instrumental de Elton John, com seus rocks feitos a partir do piano.

Arnaldo exibe também momentos de delírio no LP: a versão sublime da progressiva “Uma Pessoa Só”, de O A e O Z, com um órgão fazendo o papel de cordas; exploração do espaço misturada com divagações políticas – algo um tanto hippie – na triste “Navegar de Novo”. Tudo está rodeado pela dor. “Vou Me Afundar Na Lingerie” parece misturar esses devaneios com os  males que atingiam Arnaldo – dor de cotovelo intercalado com gírias, depressão, vontade de sumir e até o materialismo de antes em sua paixão por carros, quando cita o clássico Ford Fairlane 500.

Além do sofrimento e dos delírios, Arnaldo também grita pelo perdão de Rita nas faixas. Fica claro em “Desculpe”, de título óbvio, a agonia em querer reparar uma situação que não tem mais remédio, aquele momento em que o compositor pede de forma dilacerante para que tudo volte a ser como era, que exista uma nova chance – e ainda toca o piano com a agressividade de um guitarrista. Outra em que tenta expressar a mesma ideia é “Não Estou Nem Aí”. Em um dos primeiros versos da música, o cantor exclama: “Será que é difícil esquecer os males?”.

O único momento mais feliz do álbum é “Cê Tá Pensando Que Eu Sou Loki?”. Com roupagem de bossa-nova, no contexto do disco parece o músico fazendo aquela pose de quem está sofrendo, mas quer passar a imagem de que está tranquilo. Brinca com o nome de uma das bandas de Rita Lee (Cilibrinas do Éden), lembra-se do passado no tempo áureo dos Mutantes e usa uma frase que remete muito ao Arnaldo de tempos atuais: “eu sou velho mas gosto de viajar por aí”.

Arnaldo Batista

Com John Lennon na cabeça e Rolling Stones no coração (Foto: Reprodução)

A angústia de Arnaldo não foi exorcizada com Loki?. Em 1981, o artista, que também passou pelos grupos Patrulha do Espaço e Unziôtro, se jogou da janela de um hospital psiquiátrico onde estava internado em 31 de dezembro (data também do aniversário da Rita Lee). O mutante sobreviveu, se recuperou e passou a ter uma vida mais leve, pintando e compondo em seu sítio.

Loki? volta agora ao mercado em formato 180 gramas pelas mãos da Polysom, mesma empresa que lançou o box com a discografia d’Os Mutantes em vinil em 2014. A notícia tem sido bastante divulgada na página do Arnaldo Baptista no Facebook e também foi postada na página da Polysom. A data do lançamento, porém, ainda não foi dita. Se vier no preço padrão dos LPs da empresa (R$89,90 na própria loja), vai ser um alívio para os fãs do clássico, que hoje aparece pouco no Mercado Livre e a preços acima de R$ 200.

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