Pensei em várias formas de escrever este editorial. Cogitei contar um pouco da história do jornalismo ou da evolução da comunicação ao longo das décadas. Mas, isso vocês encontram hoje com facilidade até no Chat GPT. O que eu precisava mesmo era de um olhar humano sobre o tema Jornalista à Moda Antiga, para compor a narrativa do Pin-Up do Mês de Julho do Universo Retrô — mês em que também comemoramos o aniversário de 10 anos do portal.
Foi então que, durante a pesquisa de referências visuais para este ensaio protagonizado por mim, Mirella Fonzar, e clicado por Taína Medeiros, algo me chamou atenção: quase não encontramos fotos de mulheres jornalistas exercendo seu ofício até os anos 1950. O que, obviamente, não significa que elas não existissem. Existiam, sim, mas em número reduzido nas redações e, quase sempre, confinadas às editorias consideradas “femininas”, como culinária, moda, comportamento e sociedade.
Muitas atuavam, inclusive, como cronistas ou colunistas, mas raramente eram retratadas em ação, diante das máquinas de escrever, gravadores ou câmeras. Suas imagens eram escassas, seus nomes muitas vezes trocados por pseudônimos e suas vozes abafadas por uma estrutura de redação predominantemente masculina e pra lá de machista. Elas estavam lá, mas eram praticamente invisíveis.
Portanto, este editorial é tanto sobre mim quanto sobre elas. Além de celebrar duas décadas de carreira no jornalismo – sendo uma delas à frente do Universo Retrô – esse é também um tributo a essas profissionais. Às jornalistas que vieram antes de mim. Às que, mesmo silenciadas e invisibilizadas, abriram caminhos. Que enfrentaram preconceitos, limitações e apagamentos para que, hoje, profissionais como eu possam atuar com liberdade, visibilidade e voz, inclusive, para contar suas próprias histórias.

Como tudo começou: Minha jornada no jornalismo
Além de comemorar 10 anos à frente do Universo Retrô com a Daise, neste mês de agosto eu completo 20 anos de carreira, então, nada mais justo do que contar um pouco do que vivi profissionalmente até aqui – e que não foi pouco.
Parece que foi ontem que entrei na faculdade de Jornalismo. Eu tinha acabado de completar 19 anos e, de forma bem simbólica, embarquei exatamente no dia do meu aniversário – 4 de agosto de 2005 – para a mudança da minha vida.
Saí de Salvador – BA, onde cresci, com uma mala na mão e o coração cheio de sonhos, e embarquei sozinha rumo a uma aventura na maior cidade da América Latina, para começar a minha vida adulta. Sem parentes na cidade. Sem amigos. Sem emprego. Mas com muita curiosidade e vontade de crescer. Longe da minha família, fui morar sozinha pela primeira vez e estudar jornalismo na Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Comecei a trabalhar dando aulas de inglês, mas logo arranjei meu primeiro estágio na área. Conheci pessoas, fui descobrindo a cidade e me apaixonando por tudo o que a capital paulista oferece, enquanto me descobria como adulta e era obrigada a me virar. E da maior cidade do país guardo grandes memórias, aprendizados e uma imensa gratidão pelas oportunidades que essa terra me deu e ainda me dá depois de 20 anos.

Dos tempos do MSN: Meu primeiro contato com o jornalismo digital
Entrei na universidade numa época completamente diferente do que se tornou hoje a comunicação. Eu não tinha notebook, acesso a Wi-Fi em casa e ainda nem existia smartphone como conhecemos hoje. A internet de massa se resumia a Orkut, MSN e um Google com navegação bem mais escassa. Para se ter uma ideia, o Facebook ainda nem tinha chegado oficialmente aqui no Brasil nessa época.
Aliás, falando em MSN, vou aproveitar e pular para a parte da história onde começo a desbravar o jornalismo online — calma que já explico. O MSN Messenger, um dos primeiros programas de mensagens instantâneas a fazer sucesso no mundo lá pelos anos 2000, teve um papel importante na minha história e vou te contar o motivo.
Após os quatro primeiros anos estagiando em agências de comunicação – clipping, assessoria de imprensa, endomarketing – meu grande sonho, como o de toda foca (jornalista iniciante), era conseguir trabalho numa redação. Apesar de nem sempre ser o caminho mais promissor financeiramente, era o que eu realmente queria: apurar pautas, entrevistar, cobrir eventos, conhecer pessoas, escrever, editar, fotografar… Contar histórias é o que me movia.
Ah, e se pudesse envolver a área cultural, melhor ainda, né? Afinal, mesmo com meus 20 e poucos anos, eu já era completamente apaixonada por música, cinema e moda, especialmente dos tempos antigos.
Foi aí que, em 2009, consegui um estágio no extinto ONNE, que representava, na época, a aba “Estilo de Vida” do portal MSN. Enquanto muitos dos meus colegas ainda sonhavam com o jornalismo offline dos jornais diários e das revistas impressas, eu tive a sorte de entrar de cara num mundo completamente novo e promissor: o online.
Mesmo como repórter estagiária, tive a oportunidade de escrever matérias para o portal MSN, que eram frequentemente exibidas como Pop-Up do saudoso Messenger. Diferente de hoje, em que a gente precisa se destacar muito para aparecer nesse mar de conteúdo, naquela época, minhas matérias recebiam milhões e milhões de acessos — porque, além do mais, era o que se tinha. Esse foi o meu primeiro grande contato com o jornalismo digital.

As vivências que moldaram minha carreira como jornalista
Sempre costumo dizer que essa primeira fase no portal ONNE foi minha maior escola prática de jornalismo. Além de aprender todos os processos de mídia online, tive a oportunidade de entrevistar grandes personalidades (como a cantora Dianne Reeves), realizar coberturas memoráveis (como os shows de B.B. King, Buddy Guy e Chuck Berry), experienciar os grandes eventos de moda – às vezes na primeira fila (como SPFW e Fashion Rio), entre tantas outras oportunidades incríveis.
Numa época em que a escrita ainda era valorizada e jornalistas eram os influenciadores da vez, a gente era mandado para campo para experienciar de tudo um pouco e trazer nosso olhar sobre determinado assunto. E éramos extremamente mimados! Viajei de helicóptero para conhecer SPA no interior, cobri campeonato de vela em Búzios, conheci pousada em Arraial d’aJuda, fiz milhares de degustações em restaurantes da moda, fui em pré-estreias de cinema, teatro, desfiles, festivais, coquetéis… entre tantos outros convites, press kits e oportunidades que saltariam os olhos de qualquer influenciador nos dias de hoje! Mas, como vocês sabem, o mundo foi mudando e o papel do jornalista também.

Saí do portal ONNE em 2011, já como editora, para abrir meu próprio site de lifestyle. O Be Style foi meu primeiro sonho de empreender na minha profissão. Ele chegou a fazer parte da rede do R7 e durou até 2015. Também me trouxe várias oportunidades legais, mas, acabou sendo substituído pelo Universo Retrô na minha vida, enquanto amadurecia meus gostos e ideias. Eu tinha 29 anos na época e tinha acabado de voltar de uma temporada em Orlando, na Flórida, a convite de uma antiga chefe minha, para conduzir um projeto editorial.
Universo Retrô: Quando o sonho ganhou forma
Dez anos depois de entrar na faculdade e um currículo já mais experiente – com diversas passagens por agências de comunicação e marketing, sites de notícias famosos, projetos editoriais dos mais diversos -, sentia que havia chegado o momento de investir fundo no que realmente fazia minha alma brilhar. Eu não queria mais um site de lifestyle que não representasse o MEU estilo de vida. Que sentido faria escrever sobre cultura Pop, sendo que o que eu gostava mesmo era dos clássicos?
Então, com essa vontade de criar um projeto pessoal que representasse meus gostos voltados para este incrível “universo retrô” – incluindo a estética Pin-Up e o universo do rockabilly, o qual eu já frequentava desde 2010 -, conheci a Daise, uma publicitária e blogueira também imersa no universo vintage. À frente do Mente Flutuante, um dos blogs retrô mais acessados da época, eu enxerguei nela uma possível parceira para essa nova empreitada e, coincidentemente, ela também pensava assim de mim.

A gente tinha um amigo em comum, que, curiosamente, foi meu sócio no Be Style, mas só nos conhecíamos virtualmente. Mas, sabe quando você dá “Match” em um desconhecido no Tinder? Foi assim que eu e Daise começamos a nossa parceria. Nos vimos pessoalmente 1 ou 2 vezes e foi paixão à primeira vista mesmo. As duas trouxeram ao mesmo tempo a ideia de montar um projeto mais profissional de portal voltado para a cultura vintage, unindo suas experiências com mercado da comunicação, publicidade e blogs.
E assim, depois de uma série de reuniões online e vários planejamentos via Google Docs, nasceu o que vocês conhecem por Universo Retrô, lançado em 1 de julho de 2015. Um site com tudo o que nós amávamos, mas, longe de ser um blog pessoal. A gente queria mesmo que o UR trouxesse um tom jornalístico, criterioso e responsável sobre a cultura vintage. Abrimos espaço para muitos colaboradores – chegamos a ter cerca de 100 colaboradores no site, editando e revisando de forma criteriosa matéria por matéria.
Uma década de Retrô e os feitos com o portal
Quando lançamos o Universo Retrô, o Facebook já estava em seu auge e o YouTube já crescia de forma exponencial. Tivemos uma resposta muito positiva da audiência logo nos primeiros meses do portal e chegamos a quase 25 mil seguidores na página do Face. Ali era um espaço perfeito para criadores de conteúdo – tanto texto como vídeo – compartilharem seus links e engajarem.
Com o passar dos anos, percebemos que o cenário das redes sociais mudava rapidamente. O Instagram começou a ganhar força, trazendo uma nova linguagem visual e uma forma diferente de conectar pessoas do nosso universo, principalmente através das fotos e vídeos curtos. E novamente, tivemos que nos reinventar. Ampliamos nossa presença por lá também para acompanhar essa transformação, mantendo a essência do nosso conteúdo, mas explorando formatos mais dinâmicos e interativos, como a produção de ensaios fotográficos.

Assim, de forma completamente natural, fomos cada vez mais expandindo a atuação do Universo Retrô. E para quem achava que criaria um portal de notícias tradicional, fomos surpreendidas com o alcance da plataforma ao longo dos anos. Nos aproximamos – tanto online como fisicamente – da comunidade vintage por meio de reportagens, projetos especiais e eventos.
Sem a menor modéstia, afirmo que ajudamos muito a cena vintage brasileira a prosperar. Divulgamos milhares de projetos independentes, iniciativas e pessoas no site; demos voz a quem dificilmente seria notado pelo mainstream. E isso me orgulha bastante, pois 10 anos depois vejo que conseguimos fazer a diferença de verdade na vida de muita gente com este projeto.
E o mais legal de tudo isso é que não ficamos restritos à nossa comunidade. Também furamos a bolha por diversas vezes. Chamamos atenção de marcas grandes, levamos nossos conhecimentos de retrô para a publicidade, demos entrevistas para reportagens, documentários e outros veículos de comunicação. Integramos o portal da MTV, fomos convidadas a ser creators do Spotify e do Pinterest, quando essas plataformas ainda prezavam por criadores de conteúdo especializados, entre tantos outros momentos.
A verdade é que o Universo Retrô se transformou, ao longo dessa década, em muito mais do que um portal de notícias. A plataforma virou um ponto de encontro para pessoas apaixonadas pelo passado, mas conectadas com o presente. Um espaço onde memória, estilo e cultura importam muito mais que tendências, efemeridade e consumo acelerado. Aqui, o retrô nunca foi só sobre nostalgia, mas uma forma de valorizar o que veio antes, de resistir à padronização e de afirmar nossa identidade – inclusive, a minha.

A revolução dos algoritmos no jornalismo digital
Se na minha estreia no jornalismo lá em 2005, a internet ainda era uma terra quase virgem e a escrita tinha seu valor reconhecido, hoje o cenário é completamente outro. A forma como consumimos informação mudou, e o jornalismo em texto enfrenta desafios que jamais imaginaríamos duas décadas atrás. E como nada permanece igual para sempre, o Universo Retrô infelizmente também perdeu alcance na revolução dos algoritmos.
Na era dos feeds infinitos, das notificações imediatas e do consumo acelerado, o conteúdo jornalístico precisa competir não só com outras matérias, mas com inteligência artificial, vídeos curtos, memes, lives, reels e demais formatos que dominam as redes. O texto escrito, principalmente aquele mais longo e profundo (como este aqui), sofre uma espécie de invisibilidade algorítmica e não é entregue para as pessoas como antes.

Além das redes sociais, também precisamos lidar com as constantes mudanças em mecanismos de buscas como o Google. A cada nova atualização, o que funcionava antes em SEO pode se tornar obsoleto da noite para o dia. Assim, sites independentes e especializados como o Universo Retrô, que se dedicam a produzir conteúdo autoral, muitas vezes veem sua audiência despencar por não atender critérios cada vez mais automatizados, que favorecem determinados conteúdos apenas para agradar aos robôs de busca.
E como se não bastasse, agora também temos que disputar espaço com as inteligências artificiais e “influenciadores”, que muitas vezes “resumem” nossos conteúdos, sem sequer citar a fonte. Tudo isso traz uma série de consequências para quem, como nós e tantos colegas, acredita no poder das palavras para contar histórias, para aprofundar temas e para preservar a memória cultural. O desafio aqui é complexo: manter a qualidade jornalística, ao mesmo tempo em que buscamos estratégias para “driblar” o algoritmo e garantir que nosso conteúdo seja visto, lido e compartilhado.
As fórmulas prontas para viralizar e o apelo à manchetes sensacionalistas não combinam com a essência do Universo Retrô, que preza pela valorização da cultura vintage e pela construção de um diálogo respeitoso com sua audiência. Por outro lado, as redes sociais encurtam distâncias, abrem portas para a democratização do acesso à informação, e para a criação de uma comunidade nichada como o universo retrô. Isso é uma vitória! Mas, ao mesmo tempo, essa pulverização exige da gente ainda mais esforço e criatividade — e essa luta diária não é nada fácil.

O que o futuro reserva para o jornalismo?
Não tenho uma resposta definitiva para isso, mas acredito que a saída está no equilíbrio entre tradição e inovação. Utópico ou não, acredito profundamente que ainda é possível manter o olhar humano, cuidadoso e criterioso da “jornalista à moda antiga” em busca de grandes pautas e reportagens e, ao mesmo tempo, dialogar com as novas linguagens e formatos que o mundo digital impõe.
Como jornalista “2.0”, com um pé no passado e outro no futuro, sigo apostando na qualidade do conteúdo, nas histórias que emocionam e na construção de uma comunidade forte e participativa. Aceito com prazer adaptar nosso olhar para os vídeos curtos e o conteúdo interativo, mas nunca abrirei mão da pesquisa, da apuração e da escrita que faz do nosso jornalismo algo tão especial.
Porque, no final das contas, o que faz o jornalismo resistir, mesmo diante dos desafios dos algoritmos, é o olhar humano. Olhar esse que toca as pessoas profundamente, que provoca o pensamento crítico, que preserva a memória e que conta histórias de maneira única e especial. E essa é a missão que me move há 20 anos, e que continuará a me mover nos próximos 20, com muito orgulho.
Ficha Técnica
Modelo: Mirella Fonzar (Miss De-Lovely)
Fotógrafa: Taína Medeiros
Assistente: Pamela Tossaty
Produção: Daise Alves
Locação: Eventual Estúdio
Figurino: All Right Mama (Camisa Katherine e Saia Suspender) | Brechó Universo Retrô (Acessórios)
Realização: Universo Retrô Produções
Conteúdo: Site Universo Retrô














