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Do rádio ao app: inflação no Brasil revive clima de um século atrás e muda até a forma de consumir entretenimento

10 de maio de 2026, por Jane Galaxie
Destinos

Há quase cem anos, em um Brasil que ainda acompanhava notícias pelo rádio e fazia contas no balcão da mercearia, períodos de inflação alta já obrigavam famílias a rever gastos, adiar compras e trocar programas caros por formas de lazer mais acessíveis. Em 2026, o cenário econômico guarda semelhanças com aquele passado. Com preços em alta, crédito mais caro e orçamento apertado, os brasileiros voltam a reorganizar prioridades — movimento que também ajuda a explicar o crescimento das plataformas de em momentos de retração do consumo tradicional.

A projeção de inflação para o fim de 2026 ultrapassou o teto da meta do Banco Central pela primeira vez neste ciclo. O Boletim Focus divulgado em 27 de abril elevou a estimativa do IPCA para 4,86%, acima do limite superior da meta, de 4,50%. Ao mesmo tempo, a Selic está em 14,75%, maior patamar desde julho de 2006.

A próxima reunião do Copom, marcada para os dias 28 e 29 de abril, deve indicar se o ciclo de cortes continua de forma gradual ou se os juros permanecerão elevados por mais tempo. No mercado financeiro, parte das projeções já aposta em redução apenas no segundo semestre.

O que os números mostram

A trajetória recente da inflação mostra um cenário de alívio temporário seguido de nova pressão sobre os preços.

Em fevereiro, o IPCA acumulado em 12 meses ficou em 3,81%, o menor nível desde abril de 2024. Em março, a inflação mensal desacelerou para 0,16%, movimento influenciado principalmente por medidas de apoio aos combustíveis. Já em abril, o IPCA-15 voltou a acelerar e chegou a 0,89%, puxado por alimentação e combustíveis.

IndicadorFevereiro 2026Março 2026Abril 2026 (IPCA-15)Projeção fim do ano
IPCA mensal0,70%0,16%0,89%
IPCA 12 meses3,81%~3,93%4,86%
Selic15,00%14,75%14,75%13,00% (Focus)

O mercado elevou a projeção do IPCA por seis semanas consecutivas — a sequência mais forte de revisões desde 2022.

O que está pressionando a inflação

Três fatores principais explicam a aceleração dos preços em 2026.

O primeiro é o cenário internacional de energia. O petróleo Brent voltou a operar acima dos US$ 105 por barril, pressionando combustíveis e transporte. Em março, o grupo transportes subiu 1,64% e respondeu por 0,34 ponto percentual do IPCA.

Outro ponto é a alimentação. O grupo alimentação e bebidas avançou 1,56%, também com impacto de 0,34 ponto no índice geral. Custos logísticos e alta de insumos agrícolas seguem pressionando toda a cadeia.

Além disso, os chamados preços administrados — como combustíveis, energia elétrica e serviços regulados — continuam com reajustes previstos acima da média da inflação.

Juros altos mudam hábitos de consumo

Com a Selic no maior nível em quase 20 anos, o crédito ficou mais caro para consumidores e empresas. Financiamentos imobiliários, parcelas de veículos e juros do cartão acompanham a taxa básica.

Na prática, isso significa prestações mais pesadas, adiamento de compras de maior valor e redução de despesas consideradas não essenciais.

É um comportamento que lembra outros períodos da história econômica brasileira, quando famílias precisavam adaptar o orçamento para lidar com inflação e juros elevados. Se décadas atrás o rádio se consolidou como alternativa barata de entretenimento doméstico, hoje o movimento acontece no ambiente digital.

O entretenimento muda junto com a economia

Quando o custo de vida sobe, o lazer costuma ser um dos primeiros itens afetados no orçamento. Viagens ficam mais caras, restaurantes repassam o aumento dos alimentos e eventos acompanham a inflação de serviços.

Nesse cenário, cresce a procura por opções de entretenimento com custo mais previsível. Streaming, jogos online e plataformas digitais passam a ocupar espaço semelhante ao que o rádio teve em outras épocas de aperto econômico: formas acessíveis de lazer dentro de casa.

No caso das apostas esportivas, o consumo costuma ser associado ao entretenimento de curto prazo, com gastos definidos pelo próprio usuário e sem relação com estratégias de investimento. Em períodos de inflação elevada, o setor tende a acompanhar mudanças no comportamento do consumidor, especialmente quando despesas maiores passam a ser adiadas.

Um cenário moderno com ecos do passado

Embora o Brasil de 2026 seja digital e conectado, o ambiente econômico atual revive sensações conhecidas de outras gerações. A combinação de inflação persistente, juros altos e reorganização do consumo cria um cenário que lembra antigos ciclos do país — agora com novas plataformas, novas tecnologias e hábitos adaptados aos tempos atuais.

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