Após apresentação no Lucky Friends Rodeo, em Sorocaba, os irmãos conversaram com o Universo Retrô sobre a primeira passagem pelo país, a recepção do público brasileiro e os mais de 20 anos tocando juntos
Depois de mais de duas décadas tocando juntos e de uma trajetória que levou a família Durham a diferentes lugares do mundo com sua música, Kitty, Daisy & Lewis finalmente se apresentaram no Brasil. A banda inglesa foi uma das atrações do Lucky Friends Rodeo 2026, em Sorocaba (SP), no último dia 5 de setembro. Após o show, os irmãos conversaram com o Universo Retrô sobre a experiência de encontrar o público brasileiro pela primeira vez.
“É a realização de um sonho poder vir para cá. Todo mundo foi muito acolhedor, e nós realmente não esperávamos por isso. É incrível pensar que viemos de tão longe, do outro lado do mundo, e as pessoas sabem quem nós somos, gostam da nossa música. Nós realmente amamos isso. É uma sensação maravilhosa”, disse Kitty ao perguntarmos se algum dia eles imaginavam que viriam ao Brasil.
Daisy aproveitou para lembrar que a vontade de conhecer o país já existia há algum tempo: “Nós falamos sobre vir para cá durante anos, e finalmente aconteceu.” A artista britânica também deixou clara a vontade de retornar: “Todo mundo foi muito simpático, caloroso e acolhedor (…) Foi um prazer, esperamos que agora nos convidem para voltar novamente ao seu país.”

Kitty, Daisy & Lewis: mais de duas décadas em família
Formado atualmente pelos irmãos Kitty, Daisy e Lewis Durham, pelo pai, Graeme Durham, e pelo baixista D.P. ‘Popcorn’ Williams — que assumiu recentemente o posto ocupado pela mãe do trio, Ingrid Weiss —, o grupo foi bastante associado à música das décadas de 1940 e 1950 no início da carreira nos anos 2000, especialmente ao rockabilly, blues e country.
Mas, apesar da estética vintage muito característica, presente inclusive nos figurinos e na própria formação do grupo (com a bateria simplificada tocada em pé, como no rockabilly, e a presença da gaita, como no blues), há tempos os irmãos vêm ampliando o repertório e explorando outras sonoridades, como soul, reggae, funk, folk, pop e rock’n’roll.

Entre versões de clássicos e sons autorais
O primeiro single, Honolulu Rock-A Roll-A, chegou em 2005 e, em 2008, veio o álbum de estreia, Kitty, Daisy & Lewis, formado quase inteiramente por versões de músicas de outros artistas, entre elas Going Up the Country, do Canned Heat, Got My Mojo Working, clássico eternizado por Muddy Waters, e Mean Son of a Gun, conhecida pela gravação de Johnny Horton.
A mudança aconteceu em Smoking in Heaven (2011), quando o grupo passou a apresentar um repertório autoral, já com uma grande diversidade sonora. Seguindo com The Third (2015) e Superscope (2017), os irmãos ampliaram ainda mais a mistura de gêneros presente em sua música.
Prova disso é o álbum autoral The Third, que teve produção de Mick Jones, guitarrista e cofundador do The Clash. A parceria chamou atenção justamente pela trajetória de Jones: embora seja um dos grandes nomes do punk britânico, seu trabalho com o The Clash também explorou reggae, ska, dub e rock’n’roll, algo que dialoga com a liberdade musical dos irmãos Durham.

Muito além do rockabilly
Definitivamente, Kitty, Daisy & Lewis não é uma banda para “puristas” do rockabilly ou de qualquer outro gênero musical. Para além dos álbuns lançados, a família leva a sério a proposta de “jam session” e explora diversas possibilidades ao vivo. Nos shows, os três irmãos cantam e trocam de instrumentos ao longo da apresentação, e essa é uma de suas grandes assinaturas.
Na estrada desde o início de 2000, o grupo britânico surgiu da relação dos irmãos Durham com a música e da influência dos pais, Graeme Durham e Ingrid Weiss. “Tocamos juntos desde que éramos crianças. Nós sempre fazíamos jams em casa com o nosso pai e a nossa mãe”, conta Daisy. Essa convivência musical acabou se tornando a essência da banda. “É o que fizemos a vida toda, sabe? O que fazemos no palco é a mesma coisa que sempre fizemos em casa, só por diversão, curtindo”, completa Kitty.
Essa dinâmica também ajuda a entender por que tentar enquadrar Kitty, Daisy & Lewis exclusivamente como uma banda de “rockabilly” nunca deu conta de explicar muito bem o grupo. As referências à música do passado estão por toda parte, mas o que acontece no palco vai muito além da reprodução de uma estética ou sonoridade específica, e isso sem que a banda perca sua identidade.

Uma jam em família no palco do Rodeo
Na apresentação no Lucky Friends Rodeo, essa mistura apareceu tanto no repertório quanto no visual dos irmãos, cada um trazendo referências de diferentes épocas. Daisy trouxe um quê de diva do hard rock, Kitty apostou em uma estética mais boho e Lewis é quem não abandona o visual cinquentista. Mesmo com estilos próprios, nenhum deles parece se apegar a uma única década ou sonoridade na hora de tocar.
Kitty, Daisy & Lewis é um show gostoso de assistir, extremamente cru e, ao mesmo tempo, uma verdadeira aula de história da música. É possível notar que todos ali se divertem fazendo aquilo e parecem se sentir realmente em casa em cima do palco. Inclusive, durante o show, é possível ver nos olhos do pai, Graeme Durham, o orgulho por seus filhos. Para nós da plateia, assistir a essa cumplicidade familiar em cena torna o show ainda mais emocionante. Saímos de lá querendo bis!

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