Entre um icônicoFord Galaxie Rosa 1976 e a condução de projetos sociais de destaque nacional, a trajetória da Pin-Up do Mês de janeiro do Universo Retrô revela uma história feminina que vai muito além da estética vintage.
Ladie Galaxie, como é conhecida nacionalmente na cena antigomobilista e retrô, é o codinome de Cris Miralha, de Presidente Prudente – SP. Assistente social, professora universitária e empreendedora, ela é idealizadora do premiado projeto Idoso Retrô, reconhecido por políticas públicas culturais em 2025.

Madrinha do Miss Pin-Up do Santa Catarina Custom Show, Galaxie tem sua história marcada pela autenticidade, pela defesa do protagonismo feminino e pela ocupação de espaços historicamente negados às mulheres, especialmente no universo dos carros antigos.
Nesta entrevista, acompanhada de um ensaio clicado no Mah Presidente Prudente (Museu e Arquivo Histórico Prefeito Antonio Sandoval Netto), Miralha reflete sobre o caminho percorrido nos últimos anos e mostra como estética, arte e estilo também podem ser ferramentas reais de transformação social. Veja a seguir!

Universo Retrô – Em 2019, você apareceu no Universo Retrô como a mulher que adotava o estilo retrô ao lado de um Galaxie Rosa. O que mudou em você, como mulher e como Pin-Up, de lá pra cá?
Ladie Galaxie – Nossa, sete anos já? Em 2019, eu já tinha definido que o estilo Pin-Up era meu grande amor. Naquele momento, eu já havia participado de dois concursos — Miss Pin Up Londrina e SC Custom Show —, mas ainda carregava muitos estereótipos que eu mesma idealizava sobre o que era “ser Pin-Up”.
Mesmo hoje, sigo me reconhecendo como alguém em constante aprendizado. Ao mesmo tempo, tenho muita clareza sobre quem não quero ser. Essa construção foi acontecendo com o tempo, com pesquisa, vivência, escolhas e posicionamento.
Ainda hoje, quando pesquiso meu nome, aquela reportagem aparece entre os primeiros resultados. Isso me traz uma alegria imensa, pois foi a minha primeira grande visibilidade pública como Pin-Up e como mulher antigomobilista — um marco que reafirma minha trajetória, minha identidade e o caminho que escolhi trilhar.

Universo Retrô – De Pin-Up participante do concurso a madrinha do Miss Pin-Up do Santa Catarina Custom Show: como foi assumir esse novo lugar?
Ladie Galaxie – O Custom Show foi o evento que escolhi participar. Em 2018 e 2019, estive lá como candidata. Não conhecia ninguém do evento, nem mesmo as finalistas. Viajei mais de 760 km para fazer parte. Desde então, nunca mais deixei de ir. Foi no Custom que fiz inúmeras amizades. É um lugar onde a magia acontece. São três dias de imersão total. Eu e a Ana (Anny Cupcake) tivemos o privilégio de conquistar a faixa de Madrinha. Minha gratidão à organização do evento — Mirella, Soninha e Rodrigo. Muitas mulheres conquistam a faixa de Pin-up, mas não permanecem no evento. Eu, independentemente do título, sempre estive lá — e desejo continuar.

Universo Retrô – E como foi receber o convite para ser a Pin-Up do Mês de janeiro do Universo Retrô depois de uma trajetória tão ativa dentro da cena?
Ladie Galaxie – Eu sinto que foi um presente — algo que eu desejava profundamente e que foi conquistado com o tempo. O Universo Retrô é uma referência, uma página que sempre indico, menciono e enalteço. Fazer parte de algo que tanto valorizo, é uma marca que ficará registrada no meu coração.
Para mim, esse momento simboliza pertencimento, reconhecimento e amor por um universo que dialoga com quem eu sou. Toda Pin-Up sonha em viver esse encontro: ser vista, respeitada e acolhida dentro de um espaço que honra a estética, a história e a essência do retrô.

Universo Retrô – O que esse ensaio no Museu MAH de Presidente Prudente representa pra você? Conta pra gente os detalhes dessa produção para o Universo Retrô.
Ladie Galaxie – Este ensaio representa a conquista de um prêmio e marca um momento significativo da minha trajetória profissional. O museu, que hoje é meu espaço de trabalho por meio da Lei Aldir Blanc (Lei Federal 15.132/2025), simboliza uma virada importante: por muitos anos atuei a partir de contratações diretas das prefeituras e, agora, consigo realizar um projeto autoral, alcançando centenas de idosos em um espaço cultural de extrema relevância para a história, a cultura e a cidade.
A fotógrafa Bruna Neves é minha parceira no projeto Idoso Retrô e foi convidada para traduzir, por meio das imagens, o contexto que vivenciamos ao longo do projeto. A proposta do ensaio foi transmitir a nostalgia que atravessa nossas ações, utilizando o próprio museu como cenário, valorizando sua arquitetura, memória e simbolismo.
A escolha do figurino reflete aquilo que uso nos encontros do projeto: uma estética elegante, minimalista e atemporal, baseada na simplicidade chique, na feminilidade e na autenticidade — elementos que dialogam diretamente com a essência do Idoso Retrô e com a minha identidade profissional.

Universo Retrô – Para quem ainda não conhece, como funciona o projeto Idoso Retrô e qual é o impacto dele na vida dos participantes?
Ladie Galaxie – O Idoso Retrô é uma vivência cultural que nasceu da união entre minha formação profissional e o meu estilo de vida. O projeto tem como objetivo valorizar os idosos a partir de elementos que atravessam suas memórias afetivas, como músicas, danças, fotografias, vestimentas e carros antigos, mas, principalmente, suas histórias de vida.
Em 2025, o projeto foi premiado após passar por seleções estaduais e federais, sendo reconhecido como uma iniciativa relevante para o fomento da cultura. Os recursos recebidos são oriundos da Lei Aldir Blanc, dentro do Segundo Ciclo da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), que se tornou permanente com a Lei nº 15.132/2025, garantindo repasses anuais da União para estados e municípios.
O impacto do Idoso Retrô está justamente em resgatar o passado como potência: fortalecer a autoestima, estimular vínculos, promover pertencimento e reconhecer a trajetória individual de cada idoso como parte fundamental da história coletiva. Na prática o projeto envolve: palestra show com tema “Envelhecer Feliz”, maquiagem a todas participantes, momento coffee break, fotos profissionais com acessórios de época ou no carro, e, ao final, cada participantes ganha uma foto profissional para materializar este dia.

Universo Retrô – Você atua como Assistente Social, Supervisora Acadêmica e Empreendedora Social, certo? Conta pra gente mais sobre seu trabalho.
Ladie Galaxie – Minha atuação profissional sempre caminhou junto com a minha identidade. Hoje atuo em três estados e mais de 12 municípios, desenvolvendo ações de prevenção e enfrentamento de vulnerabilidades sociais por meio de grupos, escolas e projetos culturais.
Também sou professora universitária, atuando como supervisora de estágio obrigatório presencial, o que me mantém em constante estudo e atualização. Além disso, sou palestrante, militante na causa da mulher e diretora do meu conselho profissional (CRESS), onde luto pelos direitos dos assistentes sociais.
Minha estética nunca foi um adereço separado da profissão. Ela é parte da comunicação, da escuta e do vínculo que construo com as pessoas. Sou casada há 27 anos, tenho dois filhos, sou gateira e vivo uma rotina de trabalho intensa. Gosto sempre de reforçar: nossas conquistas são fruto de prioridade, esforço e luta — não de riqueza.

Universo Retrô – E o que a Ladie Galaxie leva da Assistente Social para os palcos, concursos e eventos?
Ladie Galaxie – Enquanto assistente social, a comunicação é uma ferramenta fundamental do meu trabalho. Acredito que, como Pin-Up, também me comunico dessa forma: utilizo temáticas que dialogam com protagonismo, empoderamento, valorização dos direitos e empatia.
Confesso que, em alguns momentos, isso se torna difícil, pois o universo Pin-Up ainda se mostra hostil e competitivo. No meu trabalho profissional, atuo com públicos em situação de vulnerabilidade.
Aprendi que a melhor escolha nem sempre é estar em todos os espaços. Não desejo mudar as pessoas onde é apenas um “rolê”, cada coisa no seu momento.

Universo Retrô – Você iniciou apresentações burlescas e balé nos últimos anos. Conta pra gente um pouco sobre essa relação com a dança.
Ladie Galaxie – No primeiro ano, foi quase um stand-up da dança (risos). Mas em 2025 e 2026, já praticando balé, percebi que queria assistir ao vídeo no final da apresentação e me sentir diferente. Dançar é um território novo, que estou aprendendo a habitar e a aprimorar — com respeito ao tempo, ao corpo e ao processo.
Fui uma criança financeiramente muito vulnerável. Não havia recursos para nada além do básico. Ainda assim, sempre admirei a dança e os instrumentos musicais. Era apaixonada pelo balé — pelos acessórios, pelos figurinos, por tudo o que aquele universo representava. Era um desejo tão grande que, muitas vezes, me fazia chorar.
Já adulta, quando finalmente tive condições de pagar por aulas, procurei escolas de dança, mas não me sentia acolhida. Às vezes pelo corpo, outras por nunca ter dançado antes, outras ainda pelo padrão inalcançável exibido por bailarinas que pareciam dizer, sem palavras, que aquele não era um espaço para mim.
Em junho de 2024, conheci a escola que hoje frequento: Grace Ballet Studio. Uma bailarina preta, dona da própria escola de balé, me acolheu e me fez compreender algo fundamental — havia, sim, espaço para o meu sonho. Hoje me sinto feliz, mesmo com muitos desafios a superar. Essa vivência tem me fortalecido e me ajudado a incentivar outras mulheres a realizarem seus sonhos.

Universo Retrô – Você acredita que estética, arte e estilo também podem ser ferramentas de transformação social?
Ladie Galaxie – Acredito muito nisso. Consegui transformar um projeto de trabalho, que inicialmente tinha cunho social, em uma proposta cultural que dialoga diretamente com a estética que eu vivo.
Na minha atuação profissional, muitas mulheres verbalizam meu estilo com frases como: “coragem de andar assim” (risos). Eu sempre entendo como elogio.
Já participei de workshops nos quais palestrei sobre o poder da autenticidade. Acredito que mulheres que são Pin-Ups na vida — e não apenas em eventos — acabam se destacando mais no que fazem. Existe algo muito potente nisso: somos autênticas, destemidas e carregamos uma alegria visível no estilo. Não é fantasia, é identidade.

Universo Retrô – O Ford Galaxie Rosa é quase uma extensão da sua identidade. O que esse carro diz sobre quem é a Ladie Galaxie hoje?
Ladie Galaxie – Ele realmente me representa. Não por ser rosa, mas por ser forte. Na minha região, recebo muitos convites para expor e fazer presença com ele. O carro é muito conhecido — mais do que eu, com certeza. Mas se ele está, eu estou. Ninguém dirige o meu carro. Juntos, somos discretamente felizes (risos).
Universo Retrô – Você sente que, com o passar dos anos, o olhar das pessoas sobre mulheres proprietárias de carros antigos mudou?
Ladie Galaxie – Acredito que ainda estamos em uma luta constante por espaço. Recentemente, fechei uma parceria com uma marca de camisetas do segmento, e isso me trouxe uma felicidade imensa, pois, até então, eu enxergava esse espaço majoritariamente como masculino.
Existem clubes de fuscas femininos e mulheres que conduzem carros maiores, como os V8, mas ainda somos poucas. Ainda assim, conseguimos nos reconhecer, nos conectar e fortalecer umas às outras. Cada parceria, cada presença e cada conquista representa um avanço — não apenas individual, mas coletivo — na ocupação de espaços que, por muito tempo, não nos foram destinados.

Universo Retrô – Ainda existe preconceito nesse meio? Se sim, como você lida com ele atualmente?
Ladie Galaxie – Sim, isso existe. E mesmo que passem anos, ainda vamos sentir. Basta olhar para a violência cotidiana que as mulheres enfrentam: o feminicídio, o sexismo e as múltiplas formas de deslegitimação que atravessam a sociedade.
O universo antigomobilista é majoritariamente masculino, e isso não é acaso. Diz muito sobre como somos criadas. Desde a infância, os meninos são estimulados: carrinhos, mecânica, velocidade. Para as meninas, o carro raramente é prioridade.
Nas ruas, as mulheres ainda são estigmatizadas e generalizadas como “más condutoras”. No mundo dos carros antigos, isso se repete. Não é raro homens dirigirem perguntas sobre o meu carro ao meu marido enquanto estou ao lado.
Aprendi a me impor e a colocar esse tipo de homem no lugar que lhe cabe. Tenho filhos e um marido que compreendem, respeitam e fortalecem esse espaço. Seguimos desbravando caminhos. Cada mulher que ocupa esse território amplia a estrada para as próximas.

Universo Retrô – Que mensagem você acha importante passar para outras mulheres que amam carros, mas ainda se sentem deslocadas nesse universo?
Ladie Galaxie – Acredito que é preciso gostar tanto da glória quanto dos perrengues dos carros antigos. Não dá para imaginar que você vai sair e voltar sem histórias para contar.
Mas, pensando que vamos envelhecer, ter um hobby para chamar de seu rejuvenesce. Faz a gente se sentir parte de algo maior, cheio de histórias incríveis.

Universo Retrô – Que sonhos ainda não realizados você guarda para a Ladie Galaxie?
Ladie Galaxie – Poderia começar dizendo que ser a Pin-Up do mês (risos), mas isso agora é um sonho realizado. Quero uma rede social grande, com visibilidade para mulheres que desejam ter carros antigos ou que simplesmente gostam do rolê.
Quero ter de volta um carro que marcou minha história e que precisei vender: o Karmann-Ghia. Também sonho em ir para Vegas e, acima de tudo, continuar com saúde para aproveitar os inúmeros eventos espalhados pelo Brasil.

Universo Retrô – Que conselho você daria para mulheres que desejam começar no universo Pin-Up depois dos 40 anos?
Ladie Galaxie – Primeiro: corre, porque a menopausa vem aí (risos). Cuidar da saúde é fundamental. Não dá para se comparar às Pin-Ups eternizadas nos quadros de Gil Elvgren.
Outra coisa: Fugir do óbvio já é uma boa dica. Temos tantas divas brasileiras para nos inspirar. Vale pesquisar referências nacionais e construir um estilo que seja identidade — não personagem.
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