Home > Destaque > A tal apropriação cultural e por que os skinheads têm tudo a ver com isso

A tal apropriação cultural e por que os skinheads têm tudo a ver com isso

4 de maio de 2017, por Norberto Liberator Neto
Lifestyle

Recentemente, depois de um caso específico, o termo “apropriação cultural” tomou o centro dos debates nas redes sociais. Esperei o acirramento se acalmar um pouco para, então, falar sobre a ligação do tema com o mundo da música. Não me aterei ao caso que na época gerou tanto frenesi de ambos os lados, mas considero importante termos em mente o que é a tal apropriação. Ao contrário do que pensam muito, antropologicamente falando ela não se baseia simplesmente em um indivíduo consumir algo de outra cultura, mas sim em uma cultura dominante ressignificar algo típico de outra, que é marginalizada.

No mundo atual, isso é feito pela indústria cultural como uma espécie de “plastificação” de algo – um exemplo claro são grandes grifes vendendo moda hippie, algo surgido justamente em protesto contra o consumismo. Ou seja, apropriação cultural não é necessariamente um problema por parte dos indivíduos que a reproduzem. Não é problema algum Eric Clapton tocar blues, muito pelo contrário. Assim como não era problema Elvis Presley tocar Rock n’ Roll, embora seja claro que a indústria o utilizou pra embranquecer o gênero e deixá-lo um pouco mais “comportado”, numa rebeldia mais amena do que o negro e bissexual Little Richard com sua voz rasgada cantando obscenidades explícitas.

chuck-vs-elvis

A briga com quem fica a coroa de Rei do Rock, se Chuck Berry ou Elvis Presley, também gera discussões frequentes sobre apropriação cultural no mundo da música (Foto: Reprodução)

Resumindo: é muito bom que Elvis tenha existido, o problema não tem nada a ver com ele como indivíduo, e sim com a indústria que fez dele o rei do Rock e jogou diversos talentos negros no ostracismo. Mas a questão da apropriação, algumas vezes, vai sim além das grandes corporações e é praticada por indivíduos. E é exatamente o que rolou com a Cultura Skinhead. Quando a maioria das pessoas ouve ou lê a palavra ‘skinhead’, tende a pensar em caras brancos com cabeça raspada ostentando símbolos nazistas. O que a maioria não sabe é que o skinhead original era negro.

Sim, o movimento nasceu dos imigrantes jamaicanos no Reino Unido, que ouviam Ska e usavam vestimentas típicas de operários, como as botas e os suspensórios. Basicamente, era a união dos mods britânicos aos rudeboys da Jamaica. O skinhead tradicional não costumava ser politizado e frequentemente era ligado a gangues e/ou ao hooliganismo (o que nem sempre são coisas legais), mas isso deve ser analisado à luz do contexto dos subúrbios britânicos da época.

Foto de jamaicanos curtindo Ska na Orange Street. Também conhecida como "beat street", foi o berço de muitos artistas de reggae, ska e rocksteady - especialmente nos anos 1960 e 70. (Foto: Reprodução)

Foto de jamaicanos curtindo Ska na Orange Street, em Kingston. Também conhecida como “beat street”, foi o berço de muitos artistas de reggae, ska e rocksteady – especialmente nos anos 1960 e 70. (Foto: Reprodução)

Aqui entra outra questão importante que acaba tendo a ver com classe e cor: os primeiros skins, que tiveram sua origem na classe trabalhadora, eram uma espécie de resposta aos hippies, em geral brancos e de classe média. Será que ser pacifista não era algo mais cômodo para estes últimos e impalpável aos primeiros? O fato é que, equívocos à parte, eles eram antirracistas.

Depois da primeira geração, surgiram vários tipos de skinheads: entre eles estavam os SHARP (‘skinheads contra o preconceito racial’, na sigla em inglês), que tinham como principal bandeira a luta pela igualdade entre as etnias; os RASH (skinheads vermelhos e anarquistas), que seguiam ideologias de extrema esquerda; e os naziskins, conhecidos pelos outros grupos como boneheads (‘cabeça de osso’, algo como ‘cabeça oca’ na gíria).

Skinheads britânicos (Foto: Reprodução)

Skinheads Sharp na Inglaterra (Foto: Reprodução)

Os boneheads tiveram origem em uma tendência chamada RAC (‘Rock contra o comunismo’, na sigla inglesa), surgido com apoio do partido fascista Frente Nacional, que buscava unir bandas de extrema direita e se opor ao chamado RAR (‘Rock contra o racismo’), que em geral tinha patrocínio e apoio dos partidos ou movimentos de esquerda.

Os caras da Frente Nacional recrutavam jovens de periferia que gostavam daquele tipo de som, mas que eram ignorantes politicamente e – contraditoriamente – preconceituosos em relação aos imigrantes. Isso cresceu tanto que o movimento skinhead passou a ser massivamente relacionado ao nazifascismo.

Boneheads em Chelsea, Inglaterra, 1982 (Foto: Reprodução / Derek Ridgers)

Boneheads em Chelsea, Inglaterra, 1982 (Foto: Reprodução / Derek Ridgers)

É importante notar a diferença entre os tipos de apropriação: ao contrário de Elvis, não houve um “amansamento” por parte da indústria cultural, e sim uma deturpação total de um movimento por parte de indivíduos. No caso dos skinheads, não existiu absolutamente nada de positivo. O pior é que, além de se apropriarem e deturparem, os boneheads conseguiram o que queriam: dominar a visão do senso comum sobre a cultura skinhead.

Pra quem tem curiosidade, abaixo dois clássicos da música skinhead tradicional, que nada tem a ver com racismo:

The Specials – Skinhead Symphony

Symarip – Skinhead Girl

Matérias Relacionadas
Lee “Scratch” Perry vem ao Brasil para show no Cine Joia em São Paulo
The Pionners
Banda jamaicana dos anos 60 ‘The Pioneers’ realiza apresentação única em SP
Lee “Scratch” Perry
Lee “Scratch” Perry e sua influência na popularização do reggae ao redor do mundo

4 Responses

  1. Niki

    Interessante o texto, mas discordo de o skinhead original seria uma resposta da periferia ao hippie, eles já existiam antes da psicodelia.

  2. Caio

    Que nada a ver mano, nem existia skinhead na jamaica pra alguem ter apropriado algo de lá. O skinhead é inglês na convergência de duas subculturas periféricas, muito diferente talvez, se as pessoas de classe média começassem a tocar reggae, se chamassem de rude boys e cagassem pros jamaicanos. O que não foi o caso, vê o tanto de artista negro da época que exaltava o skinhead, o próprio two tone é símbolo máximo da celebração bi-racial e anti-racista que deu origem ao skinhead.
    Sei que como free lancer, ainda mais do meio underground é meio difícil às vezes pagar o aluguel, mas você não precisa se prestar a esse papel. É inteligente e pode melhorar. Abraços de um skinhead antifascista.

    1. Olá, Caio, tudo bem? Acredito que o que o autor queira dizer sobre apropriação cultural é em relação aos Boneheads, que realmente não tem absolutamente nada a ver com a essência dos Skinheads. É exatamente essa a critica dele, que por causa de um grupo específico, a essência da subcultura acaba muitas vezes sendo distorcida. Que pena que não tenha achado que isso ficou claro. :) Abraços!

  3. Will

    Resumiu bem o que é apropriação cultural..

    O poder econômico compra tudo que quiser. Inclusive para ” queimar o filme”.
    Esse tema serve muito para compreender o comportamento vulnerável das massas

Deixe um comentário

10 + 7 =