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Três Acordes pelo Mundo: conheça o plural movimento punk finlandês

12 de janeiro de 2017, por Norberto Liberator Neto
Música

Neste ano em que o Punk Rock entra na casa dos “enta”, completando 40 anos, volto a me dedicar a esta coluna e aos projetos que planejei para ela. Pra começar o ano bem, venho com a segunda parte da série “Três Acordes Pelo Mundo”, onde a ideia é mostrar um pouquinho da cena punk em partes variadas do globo. A primeira foi com o País Basco e, agora, vamos falar da Finlândia!

Os mais familiarizados com o movimento sabem que o país gélido é um celeiro de bandas influentes no mundo todo. Eu me arrisco a dizer que o Hardcore Punk está para a Finlândia como os filmes e quadrinhos de bangue-bangue estão para a Itália: todo mundo sabe que não nasceu lá, mas, mesmo assim, tornou-se algo extremamente identificado com aquele país. Pra se ter uma ideia do tamanho do fenômeno, até a Embaixada da Finlândia publicou um artigo falando sobre a importância do gênero.

Falar sobre um estilo que possui escola tão ampla em um país é complicado e sempre vai faltar algo, mas me aventurarei na árdua tarefa de listar 10 das bandas mais importantes desse cenário. É bom lembrar que esses caras criaram uma sonoridade muito peculiar, que no Brasil ficou conhecida como “Punk Finlândia”. Sim, a conexão entre os punks finlandeses e brasileiros foi sempre muito forte, sendo que muitas das principais bandas nacionais (Ratos de Porão, Olho Seco, Restos de Nada…) citam a galera do país nórdico como influência. E o mesmo acontece por lá, com o pessoal daqui, como veremos adiante.

Briard

Se traçarmos uma linha do tempo do circuito punk finlandês, o Briard estará no marco zero. A banda lançou seu primeiro álbum, “I Really Hate Ya”, em 1977, o ano “oficial” do nascimento do movimento no mundo. Com um som influenciado pelos baluartes Ramones e Sex Pistols, eles faziam composições em inglês, algo que seria abolido pelas bandas posteriores (pelo menos as mais conhecidas). De vida curta, o Briard fez mais dois lançamentos, acabou em 1979 e se reuniu em 1983 para lançar o disco “Miss World”. Nos anos 90, a banda volta à ativa, mas paralisa as atividades em 1996.

Ratsia

O Ratsia (que em português significa “Ataque”) é do mesmo ano e lançou seu primeiro trabalho, o álbum homônimo, em 1979. Seu som também era influenciado pelas bandas dos EUA e Reino Unido, mas as letras eram feitas em finlandês. O Ratsia encerrou seus trabalhos depois de gravar o disco “Jäljet” (“trilha”), em 1982.

Lama

O Lama (“Depressão”, em português), que também começou em 1977, deu o pontapé inicial para o que ficou mundialmente conhecido com o rótulo de “Hardcore finlandês”. Embora esteja mais para o Punk Rock tradicional, o EP “Totuus Löytyy Kaurapuurosta” (“A Verdade Está na Farinha de Aveia”), de 1980, já traz uma sonoridade bastante agressiva, com riffs e bateria em uma velocidade ainda incomum, acompanhados por um baixo pulsante. A banda durou até 1983, um ano depois de lançar o álbum “Lama”. Houve várias reuniões da banda durante os anos 90, como a que originou o disco ao vivo “Tavastia”, gravado no clube de mesmo nome em 1993 e lançado em 2007.

Rattus

Formado em 1978, o Rattus já fazia um som que lembrava o Discharge, com a famosa batida “D-Beat”. O nome da banda foi tirado do álbum “Rattus Norvegicus”, da banda inglesa The Stranglers, que por sua vez faz referência ao nome científico das ratazanas. Os caras lançaram seu primeiro registro gravado em 1980: o single “Khomeini Rock”. No mesmo ano, também gravaram o EP “Fucking Disco”. Em 1982, lançam o álbum “WC Räjähtää” (“Exploda o Banheiro”). Uma curiosidade interessante é que o álbum “Stolen Life” (1986), gravado em inglês e com altas doses de Metal, foi lançado apenas no Brasil e na França. É que a gravadora não gostou do disco e quem lançou foram outros selos, daqui e da terra da Torre Eiffel. A banda parou em 1988 e retornou em 2001. O último disco é o “Uudet Piikit” (“Novos Picos”), de 2007.

Riistetyt

Um ano mais novo, o Riistetyt ('Explorados') abusou da velocidade, da agressividade e das letras políticas, com muitas mensagens anti-guerra. O nome original da banda era Cadgers, que pode significar “mendigo”; ou “vagabundo”, “vadio”; mas foi rebatizada em 1981, um ano antes do clássico EP “Laki ja Järjestys” (“A Lei e a Ordem”;). Sob o antigo nome, fez um split junto ao Kaaos. Com um hiato entre 1985 e 1996, a banda não parou mais e seu último lançamento é o álbum “Kuolonhymnejä” (“Os Hinos Antigos”), de 2009.

O Kaaos

O Kaaos (cujo nome significa isso mesmo, “Caos”) é outra banda que não pode faltar em listas de grandes nomes do punk finlandês. Formada em 1980, a banda estreou em 1981 com o “Kytät on Natsisikoja” (“Os Policiais São Porcos Nazistas”), split dividido com o “Kaaosta Tää Maa Kaipaa” (algo como “O Caos da Ânsia de Março”, seja lá o que isso queira dizer) do Cadgers. O primeiro registro só da banda foi o EP “Totaalinen Kaaos” (isso mesmo, Caos Total, do ano seguinte. O primeiro álbum é o “Riistinaulittu Kaaos”; (“Caos Pregado na Cruz”), de 1984 – um ano antes de a banda paralisar as atividades, voltando posteriormente em 1999 e parando novamente em 2005.

Terveet Kädet

Também de 1980 é o Terveet Kädet (“Mãos Saudáveis”), um dos mais aclamados no Brasil, devido em parte à estreita conexão com integrantes de bandas paulistanas. O primeiro registro é o EP “Rock Laahausta Vastaan” (algo como “Arrastando o Rock”), do mesmo ano em que o grupo foi formado. Três anos depois, lançaram o álbum que leva o nome da banda. Ainda na ativa sem pausas, os caras lançaram em 2015 o disco “Lapin Helvetti” (“Inferno da Lapônia”), último até o momento.

Varaus

O Varaus (“Reserva”) é um nome considerado cult em várias partes do mundo. A banda, que só fez lançamentos independentes, durou apenas de 1981 a 1985, lançando o álbum “1/2” em 1982 e o EP “Tuomittu Elämään” (“Condenado em Vida”), em 1983. O som traz a atmosfera um tanto “sinistra” que só era feita na Finlândia e a banda era muito conhecida no circuito punk internacional, embora nunca mais tenha tocado. Em 1996, a gravadora Kraklund Records fez a compilação “Requiem” e, em 2010, a Feral Ward lançou “1/1”, também uma compilação.

Força Macabra

Uma banda surpreendente e com proposta muito bacana é o Força Macabra. Isto mesmo, que você leu, o nome não precisa de tradução por estar em português! Como eu disse anteriormente, as bandas do Brasil tiveram relações muito próximas com a cena finlandesa, mas esses caras resolveram levar a influência às últimas consequências. Eles aprenderam português e fazem músicas em nossa língua. Formado em 1991, o conjunto lançou uma demo no mesmo ano, mas o primeiro álbum é o “Nos Túmulos Abertos”, de 1995. O último até o momento é o “Aqui é o Inferno”, de 2008. Vale muito a pena conferir o bom som Hardcore/Crossover dos caras e sacar o sotaque do vocalista Otto Luotonen. Além da música abaixo, você também pode clicar aqui e ver a entrevista do maluco do Otto para o canal brazuca Live After Midnight!

PKN – Pertti Kurikan Nimipäivät

O Força Macabra mostra bem a pluralidade do movimento punk na Finlândia, mas está longe de ser o maior símbolo dela. Isso porque existe o PKN, abreviatura de Pertti Kurikan Nimipäivät (“Nomes de Pertti Kurika” – o líder do grupo), existe. Ou existiu, já que a banda anunciou o fim de suas atividades em dezembro de 2016. Representantes da Finlândia na edição de 2015 do festival pop Eurovision, os caras se conheceram em uma clínica para adultos com deficiência intelectual.

Formado em 2009 por dois integrantes com síndrome de Down e dois autistas, o PKN faz um som entre o Punk Rock mais raiz e o “Hardcore estilo Finlândia”, com letras sobre o dia a dia enfrentado pelas pessoas com deficiência. A banda estreou com o split “Ei Yhteiskunta Yhtä Miestä Kaipaa” (“Um Homem Sem Sociedade”), junto ao Kakka-hätä 77 (“Emergência 77”;), outra boa banda não listada aqui (bora pesquisar!). É realmente bacana ver os vídeos dos caras tocando e exalando energia. O motivo do fim da banda foram as complicações na saúde do guitarrista/vocalista Pertti Kurika, que completou 60 anos.

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