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Lucky Friends Rodeo IX: os principais destaques da edição de 2026 do evento

8 de setembro de 2026, por Mirella Fonzar
Eventos

Até pensei em escrever este conteúdo de maneira bem jornalística, descrevendo de forma objetiva e imparcial mais uma edição do Lucky Friends Rodeo Motorcycle, que aconteceu neste último fim de semana, dias 5 e 6 de setembro, em Sorocaba, interior de São Paulo. Mas, pensando bem, seria impossível falar deste festival de maneira tão impessoal. Afinal, para entender o Rodeo é preciso narrar em detalhes toda a experiência que ele oferece.

Em sua nona edição, o festival deste ano reuniu atrações musicais vindas de diversos lugares do Brasil e do mundo, como Estados Unidos, Inglaterra e Espanha, distribuídas por três palcos, além das tradicionais corridas de Flat Track, exposição de motos clássicas, carros antigos e customizados, marcas ligadas ao segmento, gastronomia, entre outras atrações. E mesmo com um clima adverso, com chuva constante no sábado e frio intenso no domingo, segundo dados da própria organização, o evento recebeu mais de 10 mil visitantes.

Foto: Divulgação | Lucky Friends Rodeo

Dez anos de história na cena vintage e custom

Para o Universo Retrô, acompanhar essa edição também teve um significado especial. A primeira matéria que publicamos sobre o Lucky Friends Rodeo foi ao ar em outubro de 2016. Naquela época, o portal tinha pouco mais de um ano de existência e anunciava um encontro ainda novo, com motos, hot rods, food trucks, barbearia, marcas especializadas e uma programação formada por bandas brasileiras da cena. Dez anos depois, encontramos um festival muito maior, com uma estrutura capaz de receber milhares de pessoas.

De certa forma, o Lucky Friends Rodeo e o Universo Retrô nasceram e cresceram juntos. Enquanto o evento ampliava sua arena, profissionalizava sua estrutura e abria espaço para artistas cada vez maiores, nós também aprendíamos a registrar e contar as histórias dessa cena. Depois de mais de uma década, olhar para o tamanho que o Rodeio alcançou é também olhar para uma parte importante da nossa própria trajetória.

Foto: Divulgação | Lucky Friends Rodeo

A importância da curadoria musical do Rodeio

Com 23 atrações distribuídas por três palcos, nem se a gente quisesse, seria possível assistir a tudo que rolou nesta edição. Por isso, este texto não pretende fazer um relato completo de cada atração, mas registrar alguns dos shows e momentos mais marcantes ao longo dos dois dias de evento. Mas, antes de falar sobre o line-up, vale olhar para algo que ajuda a explicar esse crescimento: a curadoria musical do Rodeio.

Para quem não sabe, ela passa pelas mãos de Neri Orleone, produtor, músico e responsável pela curadoria musical do evento. Profundamente ligado à cena underground, Neri também faz parte da organização do Psycho Carnival, em Curitiba, reconhecido como um dos maiores festivais de psychobilly do mundo, e construiu parte de sua trajetória como músico nas bandas The Mullet Monster Mafia e Sick Sick Sinners.

Talvez isso ajude a explicar um line-up que não se limita aos nomes mais óbvios e consegue reunir artistas históricos, bandas contemporâneas de destaque no underground e diferentes ramificações do rock’n’roll, sem que se perca a linha de conexão entre vintage, cultura custom, motociclismo e “cena a-billy”. Dentro dessa curadoria, encontramos estilos muito diferentes e bandas que, mesmo tendo grande importância no underground, raramente ganham espaço nos festivais do mainstream. 

Foto: Divulgação | Lucky Friends Rodeo

Os headliners do sábado: The Quakes e Kitty, Daisy & Lewis

Por conta do mau tempo, nossa equipe chegou a Sorocaba no sábado a noite, no momento em que os norte-americanos do The Quakes subiam ao palco, mas, antes disso, o evento já havia recebido surf music, punk, rockabilly, psychobilly e ska, com nomes como Maniáticos do Reverb, 13 Bats, The Biggs, Esquilo e Seus Grilos, Vic Ruggiero, Thee Scarecrows AKA, Inocentes e Zeke.

No sábado, os shows mais aguardados ficaram para o fim do dia, no palco Circo. Uma das bandas de maior destaque do psychobilly norte-americano desde os anos 1980, The Quakes retornaram ao Brasil mais de uma década depois de sua última passagem pelo país. Liderado por Paul Roman, o trio mostrou por que continua sendo uma das grandes referências do gênero, misturando rockabilly e punk com elementos do pop dos anos 80 e da new wave. A banda agitou o público e apresentou um show ainda mais preciso, intenso e afiado.

The Quakes (Foto: Divulgação | Lucky Friends Rodeo)

Para fechar o line-up do primeiro dia, foi a vez de Kitty, Daisy & Lewis, banda inglesa formada pelos irmãos Kitty, Daisy e Lewis Durham, acompanhados pelo pai, Graeme Durham, e pelo baixista D.P. “Popcorn” Williams, que assumiu o posto anteriormente ocupado pela mãe do trio, Ingrid Weiss. O grupo ficou conhecido inicialmente por suas versões de clássicos, como “Going Up The Country”, do Canned Heat, e por uma estética vintage muito característica, mas há tempos vem ampliando esse repertório e explorando sonoridades que passeiam pelo rhythm and blues, soul, reggae, folk, country, blues e rock’n’roll.

Os três irmãos cantam e trocam de instrumentos ao longo da apresentação, e essa é uma de suas grandes assinaturas. Definitivamente, KDL não é um show para “puristas” ou para quem prefere assistir a algo muito previsível. A família leva a sério a proposta de “jam” e explora diversas possibilidades. É um show emocionante de assistir, extremamente cru e, ao mesmo tempo, uma verdadeira aula de história da música, capaz de atravessar décadas e estilos sem perder a identidade em momento algum.

Kitty, Daisy & Lewis (Foto: Divulgação | Lucky Friends Rodeo)

Muito além das bandas: uma cultura viva e em movimento

Aliás, acredito que seja justamente esse tipo de mistura de gêneros e referências que torna o Rodeio um evento tão especial. Esse encontro nos faz entender que a raiz do rock’n’roll é muito mais vasta do que qualquer rótulo e que, ao longo de sua história, ela se conecta com diferentes subculturas e manifestações artísticas.

E, obviamente, a cultura custom e do motociclismo também nascem dessa soma. Não se trata apenas da fixação por motos ou carros modificados, mas todo o lifestyle que essas culturas trazem consigo, como a música, moda e design, cada qual expressando a sua maneira “customizada” de existir. Juntas, essas manifestações formam algo muito mais potente e que podemos dizer que vai muito além de um resgate de uma época, é uma cultura atual e extremamente viva.

Foto: Divulgação | Lucky Friends Rodeo

Os frequentadores, por exemplo, são um evento à parte. Entre topetudos, barbudos, pin-ups, motociclistas e roqueiros, estilo é o que não falta desfilando pela arena durante o fim de semana, mesmo com o chão coberto por lama. Ali não vemos pessoas simplesmente vestidas para um festival, mas diferentes formas de expressar pertencimento e personalidade.

Além da música e das atrações ligadas à cultura custom e das motocicletas, o Rodeio ofereceu expositores do nicho, gastronomia variada e toda uma estrutura para aproveitar os visitantes aproveitarem os dois dias de evento. Os banheiros permaneceram em ótimo estado, não enfrentamos grandes filas para comer ou beber, havia guarda-volumes e o ambiente se mostrou bastante inclusivo para famílias com crianças.

A Guitarra Havaiana de Johnny Crash (Foto: Divulgação | Lucky Friends Rodeo)

Da música havaiana às lendas da surf music

No domingo, a chuva deu uma trégua maior, mas o frio chegou para ficar. Nem os cerca de 10 graus fizeram o público desanimar, e a programação começou cedo e continuou passando por diferentes vertentes da música.

Logo no início do dia, pudemos conferir A Guitarra Havaiana de Johnny Crash, projeto que trouxe a sonoridade da steel guitar e da música tradicional havaiana para a arena. Na sequência, foi a vez do American Recordings, projeto no qual Márcio Américo, ex-vocalista da The Red Lights Gang, se reúne a outros músicos para revisitar canções da última fase da carreira de Johnny Cash.

American Recordings (Foto: Divulgação | Lucky Friends Rodeo)

Entre os outros destaques nacionais, conferimos o psychobilly do The Brown Vampire Catz, de Londrina, que levou sua energia potente ao palco Boulevard. Mais tarde, o cantor norte-americano de country Moot Davis se apresentou ao lado dos brasileiros do Farol Negro, em uma parceria que trouxe um som muito gostoso de se ouvir.

Um dos grandes ápices do dia foi a apresentação do The Surfaris, grupo precursor da surf music nos anos 1960. A formação atual é liderada por Bob Berryhill, guitarrista, cofundador da banda, hoje acompanhado pela esposa Gene, no baixo, e pelos filhos Deven e Joel, na guitarra, bateria e vocais.

The Surfaris (Foto: Divulgação | Lucky Friends Rodeo)

Foi emocionante assistir a uma lenda viva da guitarra tocando clássicos como “Wipe Out” e “Surfer Joe”, além de passear por outras pérolas da surf music, como “Walk, Don’t Run”, na versão consagrada pelo The Ventures, e “Surfin’ Bird”, do The Trashmen. Mais emocionante ainda foi perceber o quanto Bob é acessível ao público.

Aliás, uma das coisas mais interessantes do Rodeio, e de eventos do underground de modo geral, é a proximidade entre o público e seus ídolos. Durante o fim de semana era possível encontrar muitos dos artistas vendendo merchandising, autografando materiais, tirando fotos e até circulando livremente pelo evento, enquanto assistiam aos outros shows que aconteciam por lá.

The Delta Bombers (Foto: Divulgação | Lucky Friends Rodeo)

Encerramento: Delta Bombers, King Kurt e Nashville Pussy

Entre a programação internacional, pudemos conferir também o show da banda The Delta Bombers, de Las Vegas, que desde 2024 tem nos vocais Pip Hancox, também conhecido por sua trajetória à frente do Guana Batz. Sua chegada reforçou a ligação da banda com o psychobilly, sem apagar a identidade construída a partir de um wild rockabilly com fortes referências do blues e do country. Pip, que já veio ao país com o Guana Batz por diversas vezes, se mostrou super à vontade no palco, o que ajudou a construir um show intenso, animando o público do começo ao fim.

Em seguida, foi a vez de King Kurt agitar a arena com seu psychobilly cheio de swing e irreverência. Com uma formação, que vai além do tradicional baixo, bateria e guitarra e incorpora instrumentos como saxofone e teclado, a banda, que também nasceu nos anos 1980, transforma seu show em uma grande festa. Foi uma apresentação divertida, caótica na medida certa e cheia de interação com o público, exatamente como se espera de um grupo que construiu sua reputação em torno de shows imprevisíveis.

King Kurt (Foto: Divulgação | Lucky Friends Rodeo)

O encerramento ficou por conta do grupo Nashville Pussy. Não consegui acompanhar essa última apresentação, mas seria impossível deixar de mencionar o peso da escolha. Formada em Atlanta nos anos 1990, a banda carrega uma mistura explosiva de hard rock, southern rock, punk e aquela sujeira sonora que é a cara do Rodeio e pareceu uma escolha perfeita para o encerramento do evento. 

Gigante sem deixar de ser próximo e acessível

Mais uma vez, o Lucky Friends Rodeo Motorcycle se mostrou um evento completo e reafirmou seu posto como um dos maiores e mais importantes encontros da cultura automotiva e do rock underground do Brasil. No entanto, mais do que o tamanho do evento ou a quantidade de atrações, o que fica é a sensação de uma comunidade extremamente fortalecida.

A cada ano, o Rodeio cresce, recebe milhares de pessoas e traz artistas que ajudam a escrever a história de diferentes cenas musicais. Ainda assim, continua parecendo uma grande reunião de amigos. E esse é justamente o seu maior mérito: ser gigante sem deixar de ser próximo e acessível; ser um grande festival sem perder aquele conforto de “quintal de casa”, onde é possível ouvir suas bandas preferidas, comer aquele rango gostoso e celebrar a vida com os amigos. 

Foto: Divulgação | Lucky Friends Rodeo

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