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Pin-Up do Mês de Setembro: Carol Lewis estrela produção original “Queen of Pain” do Universo Retrô

25 de setembro de 2026, por Mirella Fonzar
Lifestyle
Carol Lewis Pin-up Queen of Pain

Tatuadora e musicista de São Carlos, interior de São Paulo, Carol Lewis é a estrela do Pin-Up do Mês de setembro do Universo Retrô. A diva protagoniza a nova produção original do site, um ensaio inspirado na estética de Bettie Page e na relação histórica entre a tatuagem old school e o universo das Pin-Ups. 

Clicado por Taína Medeiros e com direção criativa de Mirella Fonzar, “Queen of Pain” traz a dor e a sensualidade como elementos centrais de uma narrativa sobre força, expressão e identidade feminina. No editorial, Carol incorpora uma Pin-up dos anos 1950 com referências do BDSM e elementos ligados ao próprio universo da tatuagem. 

Na entrevista ao Universo Retrô, a diva fala sobre sua relação com a tatuagem old school, sua paixão pelo universo vintage e a trajetória como baterista, cantora e compositora, além dos desafios de ocupar esses espaços como mulher. Confira abaixo a entrevista com Carol Lewis e o ensaio completo de “Queen of Pain”.

Carol Lewis Pin-up Queen of Pain
Foto: Universo Retrô Produções | Taína Medeiros

Universo Retrô — Como a tatuagem entrou na sua vida e em que momento você decidiu se tornar tatuadora?

Carol Lewis — Sempre gostei muito de desenhar. Desde muito cedo, eu sabia que gostaria de trabalhar com desenho, mas não entendia ainda como isso poderia acontecer. A tatuagem entrou na minha vida através de amizades que fiz por volta dos meus 18 anos. Comecei a frequentar estúdios de tattoo e a gostar muito de toda a cultura que isso envolvia, o lifestyle. Admirava e achava a coisa mais linda os corpos repletos de tatuagens e percebi que queria isso para mim também.

Universo Retrô — Você trabalha principalmente com tatuagens old school. O que mais atrai você nesse estilo?

Carol Lewis — Esteticamente falando, acho que é a simplicidade: traços grossos, sombreado bem marcado e cores sólidas. Também me atrai muito a parte histórica, já que a tatuagem old school surgiu em um contexto cultural e histórico que sempre me atraiu muito. Creio que o meu fascínio por aspectos da cultura estadunidense do início a meados do século XX, principalmente os anos 1940 e 1950, também contribuiu para isso.

Carol Lewis Pin-up Queen of Pain
Foto: Universo Retrô Produções | Taína Medeiros

Universo Retrô — Qual foi a tatuagem mais marcante que você já criou, seja pela história do cliente ou pelo significado que teve para você?

Carol Lewis — Foi um fechamento de costas que fiz em uma amiga muito querida. Levou cerca de um ano para finalizarmos, entre as muitas sessões que foram necessárias, mas o resultado ficou maravilhoso. Pegamos a temática náutica como centro do trabalho e usamos elementos como a caravela, o mar, sereias, âncoras…

O que tem tudo a ver com a história da tatuagem old school, pois os marinheiros do início do século XX, nos EUA, eram um dos principais grupos de pessoas que estavam fazendo a tatuagem emergir, junto com o pessoal do circo, por exemplo. Por conta disso, o significado para mim é o de estar ajudando a manter essa cultura viva. Trata-se de preservar a história dos primórdios da tatuagem old school.

Carol Lewis Pin-up Queen of Pain
Foto: Universo Retrô Produções | Taína Medeiros

Universo Retrô — Entre as tatuagens que você carrega no próprio corpo, existe alguma que conte uma parte especialmente importante da sua história?

Carol Lewis — Eu amo a minha tattoo da Rita Lee, vestida de bruxinha, na fase dos Mutantes. Tenho ela tatuada no meu antebraço direito e vivo admirando minha ídola, que me inspira extremamente como musicista e mulher. Sempre que tenho alguma dúvida do que fazer na vida, eu paro e penso: “O que a Rita Lee faria?” (risos). Aí vou lá e faço igual — ou pelo menos tento.

Universo Retrô — O ensaio recebeu o nome de “Queen of Pain” e relaciona a dor da tatuagem à força feminina. Como você interpreta esse conceito e de que forma ele representa a tatuadora, a musicista e a mulher que você é?

Carol Lewis — Gosto muito da metáfora por trás desse título. Porque ser mulher, ainda nos dias atuais, é carregar dores ao longo da vida, sejam dores físicas, causadas pelos nossos processos hormonais, sejam dores emocionais, provenientes da violência que o patriarcado exerce sobre nossos corpos, ideais, sonhos e relações.

Carol Lewis Pin-up Queen of Pain
Foto: Universo Retrô Produções | Taína Medeiros

Universo Retrô — Bettie Page foi a principal inspiração visual do ensaio. O que a imagem e a trajetória dela representam para você?

Carol Lewis — Vejo a Bettie como uma mulher transgressora para uma época extremamente moralista. Mexeu com temas pouco explorados até então, como a sensualidade mais evidente e o olhar mais provocativo e empoderado, em vez daquela imagem de inocência e pureza que era atrelada às pin-ups em geral.

Além disso, na vida pessoal, passou por situações pesadas de abuso, enfrentou muito assédio e o julgamento da sociedade patriarcal, em que a culpa sempre recai sobre a vítima da violência: a mulher. Por isso, ela representa para mim a imagem de uma pessoa muito corajosa e resiliente.

Carol Lewis Pin-up Queen of Pain
Foto: Universo Retrô Produções | Taína Medeiros

Universo Retrô — De onde vem a sua ligação com o universo retrô e o que mais te encanta nas décadas de 1950 e 1960?

Carol Lewis — Sempre gostei muito de coisas relacionadas ao universo retrô, mas não sei muito bem de onde isso veio, pois é algo natural para mim. Sempre tive o fascínio por saber que já houve épocas em que os costumes e a moda eram diferentes, e isso sempre me chamou a atenção.

Em relação às décadas de 1950 e 1960, a música foi o principal fator a fazer essa conexão. O rock ‘n’ roll e suas diferentes vertentes ao longo dessas duas décadas me agradam muito. Sou fã de Jerry Lee Lewis, Chuck Berry, Elvis Presley, Wanda Jackson, Johnny Cash e June Carter, que remontam ao rock mais clássico em sua forma, mas também dos Beatles, Rolling Stones, The Zombies — e de várias outras bandas da chamada Invasão Britânica —, além dos sons psicodélicos da geração flower power do final da década de 1960, como Jefferson Airplane, Jimi Hendrix e Vanilla Fudge. No contexto brasileiro, amo ouvir a Jovem Guarda, os Mutantes e outros artistas do movimento Tropicália.

Carol Lewis Pin-up Queen of Pain
Foto: Universo Retrô Produções | Taína Medeiros

Universo Retrô — Existe diferença entre a Carol que sobe ao palco e a Carol que recebe alguém para tatuar ou as duas carregam a mesma personalidade e energia?

Carol Lewis — Quando estou no palco, é algo mais catártico, visceral. Eu me deixo levar pela música, toco e canto de acordo com o que ela pede de mim. Muitas vezes, fecho os olhos para sentir a fluidez desse processo.

Já quando vou atender alguém para tatuar, vejo como um processo mais atento e intimista. Preciso estar extremamente focada e concentrada. Além disso, também me preocupo com o bem-estar dos meus clientes e tento criar um ambiente de maior conforto e confiança possível, para que a pessoa possa se sentir à vontade.

Acho que o que une a Carol musicista e a Carol tatuadora é que costumo colocar músicas que gosto para ouvir enquanto tatuo e, às vezes, me pego cantando junto (risos).

Carol Lewis Pin-up Queen of Pain
Foto: Universo Retrô Produções | Taína Medeiros

Universo Retrô — Você começou a tocar bateria ainda adolescente. O que despertou esse interesse e quando percebeu que a música poderia se tornar uma profissão?

Carol Lewis — Minha mãe toca piano. Lembro de, já pequena, ter esse contato com a música ao sentar no banquinho e tentar tirar ali algumas melodias. O fascínio pela bateria veio aos 12 anos de idade, quando o ritmo e a percussão me chamavam muito mais a atenção do que qualquer outra coisa.

Também não sei dizer de onde isso veio, porque foi muito orgânico e natural. Gostava de ficar batucando pela casa e fingia estar tocando nas minhas “air drums” até, de fato, ganhar a primeira bateria dos meus pais.

Fiz aulas particulares durante toda a adolescência e, aos 18 anos, montei minha primeira banda de garagem. O convívio com colegas da música me fez perceber que eu também poderia trabalhar e ganhar algum dinheiro com isso. Desde então, fiz parte de grupos de rock ‘n’ roll, rockabilly, country, blues e soul e continuo na ativa, gravando agora minhas canções autorais — todas muito influenciadas por tudo o que já citei aqui — e com a Get Beatles, minha banda tributo aos garotos de Liverpool.

Carol Lewis Pin-up Queen of Pain
Foto: Universo Retrô Produções | Taína Medeiros

Universo Retrô — Você é formada em Música pela UFSCar e atua profissionalmente há cerca de dez anos. Como essa formação contribuiu para a artista que você é hoje?

Carol Lewis — Aprendi muita coisa na faculdade. Quando entrei no curso, aos 18 anos de idade, ainda era muito “crua” na música e senti que fui sendo “lapidada” de acordo com essa formação. Toquei percussão na Orquestra Experimental da UFSCar e participei de diferentes disciplinas que abriram minha mente e percepção musical.

Foi no meio desse contexto que percebi que poderia começar a cantar. As matérias de canto me ajudaram a entender minha tessitura — alcance vocal —, timbre e possibilidades que poderia explorar.

Universo Retrô — Além da bateria, você canta, compõe e toca violão. Entre essas diferentes formas de expressão, existe alguma que revele um lado mais íntimo seu?

Carol Lewis — De certa forma, acho que a composição faz isso, porque acabo escrevendo sobre situações que vivo e emoções que estão me atravessando no momento. É algo até bem revelador do meu lado mais sensível e vulnerável.

Falar sobre amor, angústias, reflexões sobre a vida, enfim… Acho que tudo isso mostra um pouco de como sou por dentro, sem as cascas e máscaras sociais que, às vezes, coloco em mim mesma para me proteger do mundo externo.

Carol Lewis Pin-up Queen of Pain
Foto: Universo Retrô Produções | Taína Medeiros

Universo Retrô — Quais temas aparecem com mais frequência nas suas composições? Elas partem mais de experiências pessoais, observações ou personagens?

Carol Lewis — Falo sobre amor, questões existenciais, emoções, relações e feminismo. Isso parte totalmente de algo pessoal meu e é, de certa forma, um processo de vulnerabilização, em que me mostro de maneira mais profunda.

Também gosto de observar estruturas e normas sociais, principalmente quando estou em lugares cheios de pessoas. Gosto de prestar atenção em como elas se comportam e usar nas músicas reflexões a partir disso.

Universo Retrô — Como é conciliar a cantora e compositora com a baterista, que normalmente ocupa um lugar menos central no palco?

Carol Lewis — Na verdade, mesmo a bateria não sendo um instrumento central em uma banda, quando começo a cantar e tocar ao mesmo tempo, esse papel muda um pouco de figura. Percebo que as pessoas ficam um pouco curiosas e impressionadas, justamente por não ser algo tão comum de se ver por aí.

Comparo a situação às big bands antigas de jazz e swing, com o exemplo do baterista Gene Krupa: ele trouxe o instrumento à frente da orquestra, tocando solos instrumentais que chamavam toda a atenção para a bateria, que já não era mais um instrumento coadjuvante nesse contexto, mas sim o protagonista.

Carol Lewis Pin-up Queen of Pain
Foto: Universo Retrô Produções | Taína Medeiros

Universo Retrô — Você já transitou pelo rockabilly, country, blues e soul. O que mais atrai você nesses gêneros? É possível escolher um preferido?

Carol Lewis — Sou mais inclinada ao country e ao rockabilly. Adoro a sonoridade do banjo, do violão, da técnica “chicken pickin’” e dos dedilhados agudos nas guitarras, o som percussivo dos slaps do contrabaixo acústico e da bateria objetiva, com frases de caixa e ritmo marcante.

Universo Retrô — Suas referências passam pela música dos anos 1950 e 1960, pelos Beatles e por Rita Lee. De que maneira esses artistas e essas décadas influenciam o seu trabalho?

Carol Lewis — De várias maneiras. A sonoridade é algo único para mim e que me agrada muito. Gosto de canções, de melodia. Os Beatles, para mim, são a maior representação disso. Uso como referência as formas das músicas, os temas das letras e a harmonização vocal, a abertura de vozes.

Já Rita Lee, como boa beatlemaníaca que era, bebeu muito dessa fonte e trouxe a influência para o âmbito brasileiro. Com os Mutantes e, posteriormente, em sua consagrada carreira solo, conseguiu misturar o lado roqueiro irreverente com a voz doce e sensível absurdamente bem. Era uma letrista incrível e suas melodias sempre me chamaram muito a atenção, justamente por parecerem servir à música, ou seja, traduzir em som os sentimentos de que a letra falava.

Carol Lewis Pin-up Queen of Pain
Foto: Universo Retrô Produções | Taína Medeiros

Universo Retrô — Você já abriu shows de nomes como Ira!, RPM, Capital Inicial, Humberto Gessinger, Marcelo Nova e Made in Brazil. Qual dessas experiências mais marcou a sua trajetória?

Carol Lewis — Acho que foi o show antes do Ira!. Lembro de fechar com uma versão de “Balada do Louco”, dos Mutantes, e conversar com Edgar Scandurra atrás do palco logo após. Ele perguntou se era eu que tinha cantado e, com a minha afirmativa, elogiou a interpretação. Foi bem legal receber esse feedback de um artista de quem sou muito fã.

Carol Lewis Pin-up Queen of Pain
Foto: Universo Retrô Produções | Taína Medeiros

Universo Retrô — Tanto a música quanto a tatuagem e a cultura retrô ainda podem ser espaços de julgamentos sobre o corpo e a atuação feminina. Você já enfrentou algum preconceito nessas áreas por ser mulher?

Carol Lewis — Muito. Sempre me senti sendo julgada e observada por homens, principalmente, tanto em relação à minha capacidade para exercer as atividades que sempre exerci quanto em relação ao olhar de objetificação que muitos têm perante mim.

Existe ainda também um moralismo muito presente na cultura retrô. As pessoas confundem “ser retrô” com “ser retrógrado”. O fato de eu gostar da estética vintage, da moda e da música não faz de mim uma pessoa que almeja perpetuar modelos de preconceito antigos, como o machismo, o racismo, a homofobia etc.

Universo Retrô — Que conselho daria a outras mulheres que desejam tocar um instrumento, subir ao palco ou trabalhar com tatuagem, mas ainda sentem medo de ocupar esses espaços?

Carol Lewis — Vai com medo mesmo! O julgamento existe e ele é grande, mas não podemos nos limitar ao que a sociedade espera de nós. Passar uma vida sem fazer o que se gosta e quer, para mim, é um desperdício. Encare os olhares e mostre a que veio! Isso vai fazer você se sentir viva e, de quebra, inspirar muitas outras mulheres a seguirem seus sonhos.

Ficha técnica — Queen of Pain

Modelo: Carol Lewis
Fotografia: Taína Medeiros
Direção Criativa: Mirella Fonzar
Produção: Universo Retrô Produções
Assistente: Pamela Tossaty
Figurino: Brechó Universo Retrô
Locação: Mansão Eventual Estúdio
Edição: Lucas
Realização: Universo Retrô

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