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Billy Gato, um dos pioneiros do movimento rockabilly no Brasil

16 de fevereiro de 2016, por Eduardo Molinar
Lifestyle
Billy Gatos

O movimento rockabilly, quando deu seus primeiros passos no Brasil, não possuía muitas referências além das raras informações (em revistas, LP’s ou fitas cassete) vindas do exterior. No início, além de Eddy Teddy e sua banda Coke Luxe, um jovem chamado Raimundo Corrêa também montava sua primeira banda e começava a divulgar o rockabilly na noite paulistana, além de adotar o apelido de Billy Gato.

Alguns anos depois se juntou aos Grilos Barulhentos e continuaram a fazer barulho dentro e fora da cena rocker. Infelizmente, em 1989, após o primeiro show do Guana Batz no Brasil, Billy faleceu em um trágico acidente de carro. Após vinte e sete anos, alguns de seus (muitos) amigos concederam depoimentos ao Universo Retrô relembrando e homenageando um dos grandes nomes do movimento rocker no Brasil. Conheça agora Billy Gato, o rocker e músico, pioneiro do movimento rockabilly no Brasil.

Billy Gato e Eddy Teddy

Billy Gato (esquerda) e Eddy Teddy. (Foto: Arquivo Pessoal – Ricardo Hisamoto)

Wágner Lindão: Nos conhecemos ainda na infância. Depois estudamos juntos na mesma escola. Como gostávamos de futebol, após as aulas íamos em um campo, que agora não existe mais, para jogar bola. Conheci rockabilly através do próprio Billy, que na faculdade escutou uma banda chamada Polecats e gostou. Depois de algum tempo ele nos mostrou uma fita k-7 com as musicas dos Stray Cats e falou para nós irmos a um show de uma banda rockabilly brasileira chamada “Coke Luxe”. Essa banda ia tocar em uma casa punk chamada de “Napalm”. Após o show, nós fomos conversar com o saudoso Eddy Teddy, pois as músicas falavam de como era o cotidiano da época e com uma sutileza leve, brincando com a vida.

Ivan Castellon: Todos morávamos no Bom Retiro, o Ivanio jogava bola com o Billy. Lembro que eu andava com um outro brother, o Stratos, que parecia muito com o Slim Jim. Daí acabamos nos conhecendo em uma festa junina no Marechal, onde eu estudava de tarde e o Ivanio também estudava, porém à noite. Como o Billy era muito carismático acabamos nos juntando. Um certo dia o Billy nos chamou para ir visitar o Eddy Teddy. Lembro que na hora em que entramos na casa do Eddy, pensei “caraca ‘veio’, o cara já é casado e tem 3 filhos e nós somos um bando de moleques roqueiros, beberrões e fanfarrões, o que pode ter em comum conosco?”

Grilos Barulhentos.

Grilos Barulhentos. (Foto: Arquivo Pessoal – Ricardo Hisamoto)

Ricardo Hisamoto: Lembro que o Eddy Teddy foi uma figura muito importante em nossas vidas, de certa forma até paternal, no que se diz respeito ao que vivíamos na época.

Ivan Castellon: O Billy Gato foi uma pessoa à frente do movimento. Ele que sempre reunia a turma, sempre saíamos juntos e cada vez com mais amigos ele conquistava os espaços. Teve o festival Boca Livre na TV Cultura que serviu para ampliar ainda mais os horizontes do rockabilly. Lembro de outra ocasião que o Billy nos levou até a 89 FM no programa do Kid Vinil para falar de rockabilly, fomos à Kiss FM também, ele juntou o pessoal do psychobilly com o pessoal do rockabilly e as coisas iam muito bem para o movimento.

Wágner Lindão: Nossa banda era chamada de Billy Gatos, daí o apelido do Raimundo, mas na banda ele era o Ray Billy May (baixo e vocal), Vic Billy Trick (Vicente – guitarra e vocal), e eu, Wag Billy Luc (bateria). Fazíamos um cover do Stray Cats com versões cantadas em português. As músicas “O lindão” e “Ana Luiza” ainda são tocadas pelas bandas Grilos BarulhentosKrents (Banda de Luiz Teddy, filho de Eddy Teddy).

O Billy Gato fazia as letras, o Vicente fazia os arranjos e eu dava as idéias das músicas. Não tocamos muito em casas noturnas, mas uma de nossas apresentações foi no Carbono 14, que ia fazer uma sessão de bandas novas que estavam surgindo. Entre elas 365, Titãs, e outras que não lembro o nome. Após alguns meses, por motivos financeiros e estudantis desfizemos a banda e o Billy Gato foi para os Grilos Barulhentos, levando com nosso consentimento as músicas “O lindão” e “Ana Luiza”.

Os Billy Gatos ensaindo

Os Billy Gatos antes de uma apresentação, ensaiando na casa de Wágner. (Foto: Arquivo Pessoal – Wágner Lindão)

Ricardo Hisamoto: O Billy começou a tocar nos Grilos em 1986. Sempre foi uma pessoa cativante, conhecia a noite de São Paulo e seus bares, tanto é que dificilmente pagava entrada e era sempre bem-vindo. Quem conheceu o Billy sabe do que estou falando.

Wágner Lindão: Billy Gato tinha o mesmo ar cativante do Eddy Teddy.

Grega: Conheci o Billy em meados de 1987 no Rose Bom Bom, um inferninho que ficava na rua Oscar Freire. esquina com a Haddock Lobo. Era reduto da galera nos anos 80, frequentado por punks, góticos, rockers… A gente começou a andar junto e ele me apresentou os Grilos Barulhentos.

Ricardo Hisamoto: Os anos 80 foram intensos para nós, vivíamos cada noite como se fosse a última.

Ivan: Nesta época não tinha muito lugar para ir, então íamos até a casa do Billy, saíamos para tomar cerveja em algum boteco qualquer e depois tentávamos a sorte em qualquer outro lugar. Lembro do Ácido Plástico, Anny 44, Rose Bom Bom, Napalm, Zoster e Madame Satã, cada um destes lugares já tinha um público específico e sempre éramos os esquisitos, mas nada que meia hora de Billy Gato não resolvesse. Ele sempre foi assim, não tinha lugar que fossemos que ele saia sem conhecer pelo menos o barman (ele sempre dizia: “O fundamental é conhecer o barman.”).

Ensaio Billy Gatos

Os Billy Gatos ensaiando na casa de Wágner. (Foto: Arquivo Pessoal – Wágner Lindão)

Grega: Billy não saía da minha casa, conhecia meu pai e minha mãe, ele era uma pessoa super querida minha. Eu era como uma irmã para ele. Nós andávamos juntos… eu, Billy, Ivan e Ivânio.

Ricardo Billy: Um grande amigo. Fez muito pela cultura rocker. Infelizmente foi por pouco tempo… Como eu sou fã dos Grilos Barulhentos, quando podia ir em um show eu ia. Nós (Ricardo e Billy) nos víamos mais nas festas em São Paulo.

Grega: Ele era um cara agregador, divertido, encantador. Nos levou para São Caetano e assim que conhecemos a galera psychobilly de lá. Billy juntava as “tribos” e ninguém brigava. O Billy me buscava em casa para irmos em algumas baladas, como as que tinham lá na Penha, onde ele me apresentou o Ricardinho dos Kriptonitas. O Billy era muito sociável, transitava entre todas as “tribos”, ninguém conseguia bater nele, pois ninguém conseguia ficar bravo com ele…nem punk, nem careca, nem skinhead. Ele juntou a galera do ABC, de São Caetano, que era a galera do Rick e galera do Kbillys.

Billy, Kbillys e alguns outros psychobillies.

Billy, Kbillys e alguns outros psychobillies. (Foto: Arquivo Pessoal – Ricardo Hisamoto)

Mais para o final dos anos 80, quando o psychobilly começou a aparecer entre o underground paulista, alguns rockers apelidaram os psychos de “primo pobre do rockabilly”. Segundo Hulk Billy, vocalista da Kães Vadius, a primeira banda de psychobilly do Brasil, houve uma confusão com o pessoal da General Boys, gangue de Billy Gato, por causa desse apelido, mas Billy não estava envolvido.

Hulk juntou a banda, mais alguns punks, carecas e psychos, foram tirar satisfação com a gangue, que estava em um bar. Quando eles mandaram a gangue sair do estabelecimento para resolver as coisas na mão, Billy corajosamente saiu do bar e acalmou os ânimos conversando. Logo depois todos se acertaram e uma grande briga foi evitada pela coragem e bom relacionamento que Billy possuía com todos, não importando de quem grupo era. Essa e outras histórias de Billy Gato estarão no livro Rockabilly Brasil, que será lançado em março, em São Paulo.

Grega: O Billy era um rapaz extremamente sedutor, bem pegador, só que era um rapaz de família. Quando namorava, namorava sério. Foi o Billy que me apresentou o Eddy e a gente ia na casa dele e ficava ouvindo música, conversando até altas horas e o Eddy nos apresentava outras pessoas. Foram momentos muito especiais.

Ivan Castellon: Foi quando o Guana Batz anunciou seus shows no Brasil, não podíamos perder uma ocasião destas, logo estávamos com os ingressos nas mãos. Quando eles desembarcaram, o Billy com seu jeito, logo conseguiu acompanhar a banda, no dia do show ele e o Renato, estavam junto com a banda nos camarins, quando o Guana Batz começou a tocar. Puta show, puta alegria, puta lazer, puta turma. Assim que o show terminou e eles voltaram aos camarins com a banda, nos estávamos do lado de fora do Projeto SP esperando ambos para ir embora.

Quando saíram estavam tão felizes que todos ficamos mais felizes ainda e começamos a nos abraçar como se fosse uma final de campeonato com nosso time campeão, não sei quanto tempo ficamos ali comemorando.

Ivan, Ivanio e Billy Gato.

Ivan, Ivanio e Billy Gato. (Foto: Arquivo Pessoal – Ivan Castellon)

Ricardo Hisamoto: Em 19 de maio de 1989, após o primeiro show do Guana Batz, por volta da 01h30 da madrugada, Billy estava no Opala vermelho 76, conduzido pelo Renato da banda Vera K, quando sofreram o acidente que vitimou os dois na Avenida Nove de Julho, em São Paulo. Billy tinha 24 anos.

Ivan Castellon: Só nos restava voltar para casa para tentar descansar e trabalhar no outro dia. Saímos no carro do Renato com o Billy, Ivanio, Viviane (Grega) e eu. A primeira parada foi na casa do Ivanio, estranhamos o Billy não descer antes, depois paramos na minha casa, lembro de falar para ir junto, assim poderia voltar com o Billy e curtir até o fim, mas o Billy disse que não tinha problema pois somente ia deixar a Grega e voltaria. Como tinha que trabalhar cedo seria melhor ficar, e ele tinha razão, então desci.

Wágner Lindão: Ele me falou no final de semana anterior que iria receber uma banda no aeroporto, não lembro se era o Guana Batz. Billy estava feliz e queria que fôssemos juntos, mas por motivo do show ser em uma quinta-feira, e eu trabalhava na sexta, disse-lhe que não poderia ir. No dia seguinte saí cedo de casa para ir trabalhar. Chegando no serviço me deram a notícia de seu falecimento. Liguei para a minha mãe e ela falou que ele tinha falecido em um acidente de carro.

Ivan Castellon: Por volta das 6h o Ivanio me liga, lembro de suas palavras até hoje, curtas e secas, “O Billy morreu!”. Desci pensando que era mais uma brincadeira do Billy, infelizmente ele tinha esta mania, ligar e falar que tinha morrido. Então eu pensava “isso é mais uma brincadeira”, mas não fazia sentido, pois a voz do Ivanio estava estranha. Quando chego na casa do Billy, vejo o Ronaldo, irmão do Billy e a mãe dele aos prantos, então caiu a ficha. Durante algum tempo me senti culpado por não acompanhar a ambos, pensava que se tivesse ido junto estaríamos todos vivos. Não perdemos um amigo e sim um irmão. A morte deles foi um baque, todos sentimos muito, mas para a gente ficou um vazio, sempre juntos agora sobrava sempre uma cadeira, um copo, uma voz, um lugar, um amigo, um irmão, descanse em paz Billy Gato.

Karen, Grega, Eddy Teddy, Ivanio e Ivan. Grandes amigos de Billy Gato.

Karen, Grega, Eddy Teddy, Ivanio e Ivan. Grandes amigos de Billy Gato. (Foto: Arquivo Pessoal – Ivan Castellon)

Grega: Fui a última pessoa a ver o Billy, falei com ele antes do acidente. Ele e o Renato me trouxeram em casa. Tentei fazer o Billy posar na minha casa, mas ele riu e disse: “Não se preocupa não, vou chegar bem em casa”. A família dele não me deixou participar do velório, foi uma coisa muito trágica pra mim. O Ivan e o Ivanio me deram muito apoio depois e consegui me recuperar, mas foi um ano horrível.

Ricardo Hisamoto: Não existe um dia que não me recordo desses meus amigos.

Wágner Lindão: Ao ser sepultado, no sábado, nós saímos do local de cabeça baixa e um abraçando o outro pelo pescoço.

Ivan Castellon: Graças ao Eddy Teddy e ao Billy Gato o movimento cresceu. Ambos foram gênios na criação do movimento, cada um em seu tempo e forma, mas com um único propósito: o Rock’n’Roll. Ambos carismáticos, não tem como falar de um sem incluir o outro, posso dizer que o rockabilly no Brasil somente aconteceu graças a persistência deles que não desistiram dos seus ideais.

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