Home > Destaque > Precisamos falar sobre a Bandeira Confederada

Precisamos falar sobre a Bandeira Confederada

14 de agosto de 2017, por Mirella Fonzar
Música

Há tempos ensaio em escrever uma matéria sobre a Bandeira Confederada, mas ainda não tinha tido o impulso necessário que o tema necessita para ser abordado por aqui. Afinal, a “Rebel Flag”, como também é conhecida, é um tópico para lá de polêmico, controverso e que merece aprofundamento histórico e intensa reflexão, principalmente entre os fãs da Southern Music americana, como o Rockabilly.

No último sábado, 12 de agosto, a bandeira ganhou destaque nos noticiários e me chamou novamente a atenção. Dessa vez, numa marcha neonazista, na cidade de Charlottesville, no estado americano da Virgínia, onde manifestantes exibiam bandeiras confederadas, ao lado de símbolos nazistas, a favor do retorno da supremacia branca nos EUA. Na ocasião, três pessoas morreram e cerca de 20 ficaram feridas, pois houve confronto com grupos antiracismo.

Protesto a favor da supremacia branca nos EUA com participação do KKK (Foto: Reprodução)

Para quem não está familiarizado com este símbolo, é importante ressaltar o contexto que ele surgiu e porque é utilizado tanto por grupos que pregam a segregação racial, como por fãs da cultura e música sulista americana. Voltemos, então, aos Estados Unidos do século 19, num cenário bastante conflituoso entre os estados do Norte e Sul do país; enquanto o norte iniciava seu processo de produção industrial e já havia abolido a escravidão em parte do seu território, o sul se mantinha escravagista e agrário.

Esses conflitos de interesses acarretaram na Guerra de Secessão (1861 e 1865), uma guerra civil que durou quatro anos e causou diversos estragos nos Estados Unidos. Liderados pelo General Lee (Virginia do Norte), os Estados Confederados do sul dos Estados Unidos buscavam independência para impedir a abolição da escravatura que era algo que o novo presidente, Abraham Lincoln, pressionava a acontecer, mas como dependiam ainda da agricultura e do trabalho escravo, não era interessante aos estados do sul.

Imagem: Reprodução

Depois de muitas batalhas, os Confederados da América perderam a guerra e os estados pertencentes ao sul do país voltaram a fazer parte dos Estados Unidos da América, sendo obrigados a utilizar a bandeira nacional tradicional e abolir a escravidão. Vale lembrar que a bandeira confederada teve três outros modelos antes dessa que conhecemos, que nunca foi adotada oficialmente, mas era hasteada nas principais unidades de batalha durante a guerra, por isso acabou se tornando ainda mais conhecida após o conflito.

A utilização do símbolo ficou restrita ao seu uso paralelo, por quem ainda defendia a escravidão e a separação do sul, mas não tinha como lutar contra o progresso que dominava o país norteamericano. Portanto, ao passar do tempo a bandeira se tornou um símbolo de orgulho sulista, obviamente, dos brancos. Hoje, os descendentes dos Veteranos Confederados, por exemplo, não acreditam se tratar de um símbolo de ódio racial, mas de uma bandeira que ressalta sua história e herança cultural.

Protestos contra a bandeira confederada nos Estados Unidos (Foto: Reprodução)

Até um determinado ponto da história, a bandeira realmente era usada para homenagear os soldados mortos durante a Guerra Civil e aparentemente ressaltar o orgulho sulista. No entanto, durante um dos períodos de maior segregação racial na América, entre as décadas 1940 e 1950, – coincidentemente nos anos que o rock ‘n roll / rockabilly nasciam -, grupos que pregavam a hegemonia branca, como o KKK (Ku Klux Klan), começaram a se apropriar do símbolo como algo puramente racista.

E como naquela época ainda existia uma forte segregação racial, inclusive, na música, com as chamadas “Race Series” (Séries de Raça) – termo usado para categorizar e separar praticamente todos os tipos de música afro-americana, a bandeira reforçava ainda mais o separatismo da sociedade. Uma época que, por mais que não houvesse a legalidade da escravidão, os negros americanos ainda viviam às margens da sociedade, em guetos, e continuavam a ser explorados pela população branca; só pra se ter uma ideia, eles não podiam usar o mesmo banheiro dos brancos ou se sentar no mesmo local em ônibus – e isso era ainda mais forte em cidades do sul.

Membro do KKK ao lado da bandeira confederada (Foto: Getty Images / Reprodução)

Assim, o rockabilly, apesar de ter nascido com músicos brancos e de origens sulistas, bebeu muito da fonte do blues dos negros, por isso não faria sentido adotar o mesmo símbolo que grupos como o KKK – que caçava seus ídolos naquela época – usava. Mas, contraditoriamente, a bandeira confederada começou a ser usada mais pra frente no revival do rockabilly na Inglaterra, com os Teddy Boys, nos anos 1970. Prova disso é o trocadilho na música “Rockabilly Rebel” (Matchbox), que se refere ao som da década de 50 e ao estilo sulista “Rebelde” de ser, assim como a “Rebel Flag” estampada nos instrumentos dos músicos – vídeo abaixo.

Apesar de não possuir uma conotação racista neste caso, o símbolo passou a ser adotado, em sua maioria, pelos brancos para ressaltar a cultura e música de raiz americana, que nasceu nos estados do sul – como o caso das bandas Lynyrd Skynyrd, Pantera e Hank Williams Jr. É importante notar que foram exatamente os gêneros feitos por músicos brancos (country music, rockabilly, e afins) que elevaram a bandeira a um estado de orgulho desta região. Dificilmente, os negros sulistas, que podemos considerar pais de gêneros como o rock ‘n roll, o blues, o doo wop, o jazz, entre tantos estilos musicais, são vistos hasteando a bandeira confederada.

Em teoria, como todo símbolo, a bandeira confederada pode significar coisas distintas para diferentes pessoas, mas é muito importante refletirmos que, para muita gente, ela representa sangue de seus ancestrais derramado e ideias separatistas. Além do mais, quando vemos algo marchando ao lado de grupos radicais e racistas, deveríamos repensar o porquê dos seus vários significados, não?

Eu confesso que, como muitos fãs do neorockabilly e da cultura sulista americana de raiz (inclusive do blues), já usei o símbolo inocentemente, como orgulho da subcultura que faço parte, mas hoje já não consigo mais utilizar. Afinal, por mais que a bandeira pareça inofensiva, sua histórica ligação com a exploração de uma etnia, automaticamente, a torna um símbolo difícil de sairmos hasteando por aí.

Qual a sua opinião sobre a Bandeira Confederada?

Matérias Relacionadas
Cantora de Rockabilly
13 promissoras cantoras de rockabilly que você precisa conhecer
Emanuela Hutter
13 conceituadas cantoras de rockabilly em atividade que você precisa ouvir agora
Conheça a história do Rockabilly Stroll e aprenda a dançar
Rock This Town: Editorial do Universo Retrô com rockers de São Paulo homenageia início do movimento rockabilly no Brasil

18 Responses

  1. Leamdro Màrck

    Sensacional texto e muito corajoso! Confesso que já usei muito esta bandeira como rocker nas festas… Ma hoje eu compartilho do mesmo ponto de vista que o seu. Abraços

  2. Coska

    Oi Mirella, Aqui é o coska da The hicks .Falar sobre essa bandeira esta sendo um pouco dificil mesmo, inclusive tivemos aqui em poços de caldas um incidente com ela, no ultimo encontro de carros antigos na cidade um hospede do hotel em frente a exposição colocou uma bandeira confederada na janela do hotel e pronto foi feito a bagunça. e desde então começei a bater de frente justamente pelo fato de se tratar de um simbolo que pode ser visto por dois lados, mas você concorda comigo que é uma minoria que usa esse simbolo para o mal” então vou discordar de você quando diz que não consegue mais usar, não vejo problema justamente por usarmos pelo lado real de seu significado. procure algo como a festa confederada que acontece em santa barbara do oeste pra você ver que a maldade esta nos olhos de quem procura maldade. Pois da mesma forma que uma minoria usa o simbolo para o mal afim de incentivar a ignorancia, as pessoas que levam isso pelo bem podem se sentir ofendidas com seu simbolo concorda? acredito que antes de falarmos do lado ofensivo que uma minoria utiliza, devemos exaltar o bem pra nao dar mais força, pois realmente é uma minoria que utiliza isso de forma errada o que é uma pena

    1. Oi querido, obrigada pelo seu comentário. Tentei abordar exatamente os dois lados na matéria, mas, infelizmente, historicamente o símbolo nasceu como algo separatista e a favor da escravidão, e continuou a ser usado apenas por brancos – tanto para ressaltar o orgulho sulista, como por grupos de ódio. Portanto, é realmente um tema complexo, eu entendo. Mas, não deixa de ter uma história pesada, né? Hoje eu dia, eu não consigo mais utilizar a bandeira, pelo simples fato que ela não representa minhas paixões pela música negra. Mas, entendo o seu ponto de vista e respeito. ;) Grande abraço!

  3. Fabio

    Repúdio. Já fui ingênuo a ponto de usar a bandeira do Estado de São Paulo, que pra mim tem a mesma conotação da bandeira confederada.
    Adoro rockabilly, mas bandeira sulista… jamais!!!

  4. Uncle Hoss

    Sinceramente, sem querer ofender aos que defendem… Mas sempre que vejo alguém em defesa da bandeira, vejo além disso, vejo pessoas fazendo vista grossa sobre uma história, sobre alguns fatos da apropriação que o grupo KKK fez. E é nesse momento, que devemos pensar melhor. No momento que grupos nazistas, grupos extremistas fazem o uso de tal coisa, já deveria ser, antes de tudo, o momento de você pensar. Você, que usa a desculpa de que “defende” a bandeira por ela remeter cultura, música, nunca se perguntou porque gruposextremistas vindo lá do Sul norte-americano, usam ela? É sério que realmente não te faz pensar em nada? A bandeira de fato não é racista, racista são as pessoas, extremistas são as pessoas, mas toda a simbologia que ela carrega continua forte. Não direi que não sinto muito por descendentes dos confederados que fugiram dos Estados Unidos e foram até Santa Bárbara d’Oeste. Infelizmente, a cultura dessas pessoas foi afetada por conta de uma grande massa, uma massa que faz a cama com uma bandeira, uma massa racista. Então, infelizmente, os que já usaram essa bandeira um dia e outros que ainda usam, sinto dizer que mesmo não sendo racistas e sendo apenas pessoas que amam a cultura que vem do Sul, vamos fazer pouca vista grossa e admitir, DE UMA VEZ POR TODAS, a bandeira perdeu as forças quando trata-se de pessoas livres de preconceito, e que são pessoas empáticas.

  5. Comuna

    Usar a bandeira é compactuar com a escravidão. Hoje é sim símbolo de discriminação. Pode mandar a bandeira e tudo o que é cultural destes vermes imundos racistas, assassinos, ladrões e estupradores pro lixo, onde é o lugar deles. Quem quer viver tem de deixar viver, o lugar mais quente do inferno é destinado àqueles que se omitem, dizia Dante.

  6. wagnerXedge

    Não acredito em dois termos nessa bandeira. É separatista e ponto!!! Do mesmo jeito que tentam inocentar o que ela representa, é a mesma forma que tentam fazer do bolsoNAZI um símbolo de mudança nesse país. Simpatizantes de ambos são fachos e não passarão!!!
    Belo texto

  7. Vladimir Urban

    Tem uma coisa que é super importante sobre o Rockabilly e o Rock’n’Roll que poderíamos considerar mais, é que foi o primeiro ritmo que, em larga escala, uniu as audiências de negros e brancos. Quebrou o estigma da musica de raça.

    1. Olá, Vladmir, tudo bem? Obrigada pelo seu comentário! É exatamente isso que me faz gostar tanto do rockabilly e rock ‘n roll dos anos 1950. Depois de conhecer a história desses gêneros e como foi difícil, tanto para os músicos negros como para os músicos brancos da época conquistarem seu espaço, se torna ainda mais difícil entender porque usaríamos um símbolo historicamente racista em algo que surgiu pra unir. :) Grande abraço!

  8. Fabiano

    O tema nem é tão polêmico, bandeira sulista = simbolo racista e pronto, simples assim. Não tem como negar isso ainda mais em uma época que a informação está disponível para quem quiser e se interessar. Insistir no uso da mesma como simples e inofensivo adereço da cultura dixie é no mínimo ser hipócrita mediante o simbolismo histórico e atual da mesma. Muito bom e necessário o texto. Parabéns !

  9. Carlos

    Olá, também sou um fã da cultura sulista e gostaria de refletir sobre alguns pontos. Primeiro o uso institucionalizado da bandeira confederada pelos estados do sul. Sei que oficialmente o Estado do Mississipi ainda tem o símbolo confederado em sua bandeira e que em 2015, após o massacre em Charleston o governo da Carolina do Sul resolveu retirar a bandeira confederada que tremulava na sede do governo estadual, isso pq o assassino tinha fotos com a bandeira. Então é possível que ainda existam outros órgãos estaduais que utilizem o símbolo. Em muitas casas nos EUA, na região sul , o símbolo convive pacificamente com a bandeira oficial da União. Há encontros que simulam as batalhas históricas da Guerra Civil e um repertório imenso de músicas referentes ao conflito, sendo que algumas com elementos folclóricos irlandeses muito belas que falam de liberdade, honra e elementos de carga emocional coletiva muito fortes. Ainda que tenha o uso pervertido por alguns. o símbolo confederado está na alma do povo sulista. A KKK perverte não só a bandeira confederada, como também a da União pois eles também a utilizam. Especificamente esse conflito nesses dias tem como causa a retirada da estátua do General Lee que é uma espécie de Tiradentes para muitos sulistas, e ao contrário do que divulgam ele não era racista, na verdade ele era o maior General dos EUA, além se ser um homem honrado e foi cogitado para ser o comandante maior do Exército da União e ele só aderiu à confederação pois era fiel, acima de tudo, ao seu Estado a Virgínia que acabou optando posteriormente pela secessão.

    Um abraço

  10. ossian

    eu como gosto muito de hot rod … e tenho um … usava um adesivo no meu hot rod … justamente por esse lado da musica rockabilly e a rebeldia de um carro hot rod sem para-lamas e motor grande e tal … acabei tirando o adesivo para evitar assunto… . é muito “difícil” explicar seu ponto de vista hj em dia … ate mesmo para um primo meu nascido e criado no EUA … que mal fala português … quando ele veio aqui a alguns anos atras e viu o adesivo … ficou incrédulo disse que não podia e tal .. foi mais difícil ainda tentar convencer ele um americano , que não era nada racista e sim um simbolo que demonstra a rebeldia em um hot rod … do mais acabei tirando do meu carro um chevrolet 1930 para evitar assuntos …

  11. fabiano

    Ola amigos Parabéns pela matéria em primeiro lugar ….basta lembrarmos da suástica q tinha uma conotação diferente até hitler e seu partido utilizar…. o que vale é o real sentido em que vc acredita. . E nao a conotação que a mídia ou esses idiotas assassinos dao a ela….. eu tenho tatuagem e isso na minha pick up e continuarei usando …. o que a sociedade pensar danese….. detalhe nao sou racista nem assassino… apenas partilho dos mesmos gostos dos sulistas kkkkk um abraço

  12. Marcelo Boyce

    As pessoas deveria se dar ao trabalho de pelo menos pelo menos pesquisar ,a respeito de qualquer símbolo , assim como fiz quando notei constantes referências ao gato felix no mundo lowrider , esta bandeira foi e sempre será o símbolo da segregação racial na América do Norte , no Brasil quase ninguém sabe o real intuito deste símbolo popular em encontros de carros antigos no Brasil , se perguntar para as pessoas que ostentam tal bandeira acredito que 98% delas saibam o que é , por isso é um momento de ter calma , eu sempre tento passar a informação pra frente , a KKK não se apropriou de nada apenas se identificou com a ideologia dos donos do algodão

  13. Frisco

    Sou skinhead e entendo perfeitamente o que é esse tipo de polêmica. Sequer considero fãs de Oi! como skinheads pois foi justamente esse rótulo musical que abriu as portas para a confusão entre skinheads e neonazistas, considero fã de Oi! um punk de cabeça raspada, embora muitos punks achem minha tese rasa e preconceituosa.
    Vivemos numa era de eterna vigilância e o acesso a informação está facilitado, ratificar um passado racista e ostentar uma coisa que representou a ideia de superioridade é repugnante. Música é para unir pessoas e corações, amo quando gente que não é de minha subcultura gosta do reggae sujo e do soul obscuro que é quase um rock sessentista, quando pessoas “normais” pesquisam sobre artistas e adquirem elementos do skinhead. Evidente que tenho minhas posições políticas e são bem claras, politica está em tudo e nosso estilo de vida se baseia em uma época, a mentalidade não pode ficar nos anos 50 ou 60 em que inúmeras atitudes eram toleradas. O passado e o futuro da música é quase sempre negro, nunca vou entender a dor que sofrer racismo e empatia é para pessoas dignas.

Deixe um comentário

5 × quatro =