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Tudo que você precisa saber sobre blues, o gênero que deu origem ao rock ‘n roll

23 de outubro de 2015, por Mirella Fonzar
Música

Para quem gosta de rock ‘n roll e quer entender melhor sua história, é essencial saber que o gênero surgiu bem antes de Elvis Presley ser coroado Rei. Como não poderia deixar de ser, a trajetória do estilo musical mais transgressor de todos os tempos começou com um grito. Nesse caso, o grito do negro africano, que foi trazido à América como escravo e influenciou o mundo todo com sua musicalidade, dança e atitude singular.

Os músicas cantadas pelos africanos durante o trabalho nas plantações de algodão no sul dos Estados Unidos, no final do século 19, dariam origem ao Blues. Presente nas raízes musicais dos primeiros roqueiros da história (entre eles, Elvis Presley e Chuck Berry), o ritmo decorre da palavra “blue”, que na língua inglesa significa azul, mas também é usada para designar pessoa de pele escura, bem como tristeza ou melancolia.

De fato, antes de falar sobre a revolução sonora da década de 1950, é preciso considerar o surgimento do Blues. Resultado da fusão entre a música africana e a europeia, o estilo musical nasceu para aliviar a dureza do trabalho no campo, dando voz aos excluídos. Enquanto os negros expressavam suas emoções, os brancos viam nas work-songs (canções de trabalho) uma maneira de garantir ritmo e animação ao trabalho puxado nas plantações.

Mal sabiam o poder que estavam dando aos afro-descendentes. O som, que, antes, servia apenas para aliviar a tensão do trabalho, começou a ganhar forma, pois, além de apelar para Deus, os escravos começaram a curar – e debater – as dores da exploração através da composição de letras e músicas.

Ao contrário da rigidez dos eruditos, o Blues nasceu como uma trilha sonora extremamente crua, focada nos fortes vocais e acompanhada apenas por violão. O que transformava um comum trabalhador rural ou industrial num verdadeiro bluesman (músico de Blues) não eram as técnicas musicais, e sim o sentimento que ele colocava na interpretação de suas canções.


“Muitas pessoas falam ‘Eu não gosto de blues’, mas quando você não tem dinheiro, não pode pagar o aluguel de sua casa e não pode comprar comida, você com certeza tem o blues” – Howlin’ Wolf.

De fato esse sentimento também serviu de inspiração para a evolução do estilo musical, que se expandiu para os grandes centros urbanos. Por conta da emancipação dos escravos, no final do século 19, surgiram outras oportunidades de trabalho para os negros, como em metalúrgicas, refinarias ou obras. Assim, muitos deixaram o campo e partiram para periferias de grandes cidades, como Chicago, Detroit, Memphis, e, principalmente, para a região Delta do rio Mississipi, nos estados de Arkansas, Tennessee, Alabama e Luisiana.

Entre a virada do século 20 e o final da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), esse movimento de migração foi responsável pela formação dos primeiros guetos americanos. Neles, os negros começaram a criar comunidades puramente afroamericanas, ganhando forças para viver como homens “livres” – já não eram mais escravos e precisavam de dinheiro para sobreviver – e enfrentar o separatismo da sociedade WASP, White Anglo-Saxon Protestant (Branco, Anglo-Saxão e Protestante).

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Antigo café de blues no Mississippi (Foto: George Mitchell / Reprodução)

Mas, a diversão dos negros da época não ultrapassava o limite periférico. No próprio gueto encontravam-se desde igrejas com cultos religiosos até prostíbulos, bares e casas de jogos. Todos com um ponto em comum: a música. Este cenário foi responsável pela explosão do Gospel, Jazz e Blues urbano, que se tornaram gêneros mais requintados, com um número maior de músicos e instrumentos.

Das plantações às gravadoras

As primeiras gravações aconteceram na década de 1910, mas só a partir de 1921, que as grandes gravadoras americanas passaram a produzir Race Series (Séries de Raça), subdivisões que lançavam discos de músicos negros para a população dos guetos. Ainda sem guitarra elétrica, a primeira leva de sucesso de vendas foi entre cantoras como Mamie Smith, Bessie Smith e Alberta Hunter.

Confira a gravação de Mamie Smith & Her Jazz Hounds, interpretando a canção Crazy Blues, em 1920. Esse foi o primeiro Blues a virar disco, superando todas as expectativas do mercado e vendendo 75 mil cópias por semana:

Até a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a mais importante região de Blues era o Delta do Mississipi. Ali surgiram músicos essenciais para o estilo – como Charlie Patton, Tommy Johnson, Son House, Big Joe Williams, Skip James e o lendário Robert Johnson -, que variavam dos mais calmos e introspectivos aos mais fortes e entusiásticos.

O que fazia o Delta Blues ser tão inovador era o uso das repetições de um mesmo acorde, do falsete nos vocais (sons mais agudos ou mais graves que a frequência natural) e de um truque que se tornaria a marca registrada do gênero, o slide. Ao deslizar uma garrafa de vidro sobre as cordas do violão, o músico conseguia um efeito, então, inédito no instrumento. Confira o Delta Blues de Robert Johnson, na gravação do clássico Me And The Devil (1938), abaixo:

Surgimento da guitarra elétrica

Na década de 1940, o Blues caipira foi renovado com a presença de um novo ingrediente: a guitarra elétrica. Novas gravadoras abriram suas portas e outros bluseiros passaram a dominar a cena. Em Memphis, então capital da região Delta do Mississipi, os então garotos B. B. King, Sonny Boy Williamson e Elmore James davam seus primeiros passos, defendendo as raízes do Delta Blues.

Já em Chicago, surgia outra leva de talentos, que, por sua vez, levantavam a bandeira do Rhythm and Blues, com a gravadora Chess Records. Neste cenário nascia uma importante parceria entre o guitarrista Muddy Waters e o baixista Willie Dixon, autores do clássico Hoochie Coochie Man. Entre outros músicos, a cidade dos ventos também viu surgir o gaitista Little Walter, o guitarrista Buddy Guy, e, por fim, o pai do Rock ´N Roll, Chuck Berry.

Confira o vídeo abaixo, quando o Rhythm and Blues, de Chicago, encontra-se com o Delta Blues, do Mississipi – Muddy Waters, Willie Dixon e Sonny Boy Williamson tocando a música Got My Mojo Working, composta por Preston Foster:

Enquanto isso, John Lee Hooker fazia uma ponte entre Memphis e Chicago. O músico, sozinho, levava uma nova derivação de Blues a Detroit, chamada de Boogie. Nomeado o Rei do Boogie, Hooker trabalhou para diversas gravadoras usando vários codinomes, como Birmingham Sam, Johnny Williams, John Lee Booker, Johnny Lee, Texas Slim, entre outros. Veja no vídeo abaixo o sucesso Boom Boom, de Hooker:

Delta Blues, Rhythm and Blues ou Boogie?

Não importa a vertente. Cada qual tem o seu estilo particular de fazer Blues e todos deixaram sua marca na história da música. Com certeza, são parte importantíssima no surgimento do Rock ‘n Roll, ou de qualquer gênero da música popular do século 20. Do Jazz ao Soul, passando pelo Funk de James Brown, chegando ao Reggae de Bob Marley, o estilo contagiou basicamente todas as manifestações musicais do século 20.

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Para saber mais:

Essencial para quem saber mais sobre a história deste gênero é a série de filmes The Blues, produzida por Martin Scorsese. Ao todo são oito documentários dirigidos por Scorsese (Feel Like Going Home e Lightning in a Bottle), Clint Eastwood (Piano Blues), Mike Figgis (Red, White & Blues), Charles Burnett (Warming by the Devil’s Fire), Marc Levin (Godfathers and Sons), Richard Pearce (Road to Memphis) e Wim Wenders (Soul of a Man), que partilham a sua paixão pela música através das câmeras.

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