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A relação da cultura retrô com o orgulho latino

23 de fevereiro de 2026, por Daise Alves
Lifestyle

(Frame do filme publicitário da Globo que exalta o Show do Intervalo do Super Bowl com Bad Bunny – Foto: Luana Roberta/Divulgação/TV Globo)

Nas últimas décadas, a cultura retrô, que resgata em sua essência décadas passadas, principalmente do século XX, está dominando a indústria do entretenimento, através de reproduções, recriações e remakes. Cada vez mais as pessoas tentam resgatar coisas do passado através da estética, seja na moda, música, design, jogos, cinema, entre outras vertentes da indústria cultural.

A nostalgia presente nos dias atuais, atrai não só aqueles que viveram em décadas passadas, que revivem esses momentos como lembranças, ativando memória afetiva, mas também, as novas gerações, que criam uma apreciação por aquilo que não viveram e se tornam curiosos em relação ao assunto.

(Parte do show do Bad Bunny com estética retrô resgatando as raízes do seu país que conversa com toda a América Latina)

Por outro lado, uma outra tendência que tem criado força é o orgulho latino e brasileiro como reafirmação de identidade cultural. Antes mesmo da explosão do cantor porto-riquenhoBad Bunny, que recentemente ganhou o Grammy, se apresentou no Super Bowl e fez um show histórico no Brasil, se destacando por elevar a cultura do seu país, as pautas do orgulho latino-americano e brasilidade já vinham ganhando forças em outras frentes.

Esse sentimento, vai além de uma questão geográfica. É um movimento que busca se conectar com suas raízes e ancestralidade e une países através da música, cultura, valores e identidade. 

Como a cultura retrô se conecta com o orgulho latino

Por muito tempo, ao falar de cultura retrô, as principais referências eram europeias e norte-americanas. Era o resgate retrô de uma importação cultural onde eram “reembaladas” memórias e “reencenado” estilos de ícones globais, a qual não foi diretamente vivida na parte sul da América.

(Exemplo de tipografia popular brasileira latina por Filipe Gimaldi)

Mas, o que antes era apenas um revival de admiração e inspiração de artistas e estilo de vida, agora se transforma em afirmação cultural, identidade e pertencimento. O retrô deixa de ser algo só importado, mas gera uma memória afetiva local, que nasce do cotidiano das pessoas: a estética da casa de vó, móveis herdados, tipografias populares, cores quentes, contraste, exagero, programas de TV, novelas, sabores de infância… O retrô latino herda uma herança cultura, onde reafirma que “isso sempre foi nosso”, validando histórias antes pouco valorizadas e reforçando uma identidade potente.

Nostalgia como pertencimento latino

O orgulho latino não é só sobre hastear bandeiras e afirmar que você vem de um determinado país, mas é reforçar um pertencimento coletivo ativado por memórias similares entre os países. 

É um objeto que tinha na casa dos países, uma dinâmica das festas de infância, uma embalagem sempre vista nas prateleiras do mercado… É através da vivência cotidiana guardadas na memória afetiva que as gerações se conectam e reafirma suas origens. 

(A estética das fotos dos anos 90 e 80 | Foto reprodução: Incrível Club)

Memória afetiva como resistência cultural

Um outro ponto que os países latinos têm em comum é que foram explorados com a colonização, e consequentemente, tiveram um apagamento cultural em sua história. Resgatar a essência do seu próprio país através de artistas esquecidos, estéticas marginalizadas e artistas populares é resistir a imposições culturais estrangeiras e fortalecer a autoestima de seus povos.

(Artistas latinas que divulgaram seus países ao mundo)

Marcas e nostalgia latina

Para as marcas, o marketing de nostalgia se torna um ambiente seguro e confortável. Ao relançar produtos clássicos ou resgatar uma estética vintage em campanhas publicitárias cria-se uma conexão emocional com os consumidores, e consequentemente, maior engajamento e fidelização.

Com a América latina nos holofotes, surge o renascimento latino, e com isso um novo polo criativo que também impacta na comunicação. Assim, surge o marketing de nostalgia latina, onde as marcas começam a criar narrativas mais direcionadas à comunidade local, resgatando pautas que reforcem o orgulho identitário e autêntico. 

(Estampa da camiseta da marca Viva Shop, que já nasceu inspirada na cultura retrô latina e campanha da marca Renner exaltando o retrô e latinidade)

O discurso das marcas passa a ser também estratégico, pois o “retrô latino” não é só mais uma questão de nicho, mas uma potência econômica onde é necessário reconhecer a cultura ao invés de folclorizar e criar estereótipos através da percepção de terceiros.   

Pin-Ups, feminino e orgulho latino

As pin-ups, um tema constante aqui no Universo Retrô, também resgatam o orgulho latino através da feminilidade. Enquanto a estética da pin-up americana é mais plástica e engessada, a pin-up latina é mais viva e quente, desafiando padrões colonizadores de beleza e trazendo uma estética mais livre e até mais marginalizada.

Isso se manifesta no resgate do tropicalismo brasileiro como cabelos naturais e flores no cabelo; no “Pachucocore” do México e  estética chola; e até em um contexto mais moderno, nas pin-ups da periferia com uma moda mais urbana e atual, mas com referências vintage. 

(Referências de como a moda latina se conecta com a cultura retrô)

Além disso, não é de hoje que a subcultura retrô se encontra com as influências latinas. O Universo Retrô já fez uma abordagem por aqui, falando com os latinos desempenharam um papel importante em ambientes como música, customização de carros antigos e também na moda.

O passado deixar de ser saudade e vira identidade

Podemos dizer que a cultura retrô e o orgulho latino e brasileiro se conectam porque transformam o passado em força coletiva e memória em identidade. Mais do que querer voltar ao passado e revivê-lo, agora é sobre reivindicar a própria história e cultura e transformá-la em linguagem contemporânea. 

O retrô latino não olha para trás com saudosismo, tristeza e idealização, ele tenta resgatar a sua própria história como forma de valorizar a ancestralidade, mostrar sua potência e cultivar as raízes para construir um futuro com mais identidade local.

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