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Entrevista com Romir Andrade, um dos mais importantes pioneiros do rock no Brasil

5 de abril de 2017, por Joanatan Richard
Música
Romir Andrade

Na matéria anterior, falemos sobre o grupo The Angels, um dos mais importantes pioneiros do rock dos anos 50 e 60 no Brasil. Comentamos sobre a explosão do rock ‘n’ roll na década de 1950 no Brasil e sobre os discos do grupo, que depois ficaram conhecidos como The Youngsters, e que além dos seus próprios álbuns também fizeram gravações com Roberto Carlos, The Golden Boys, Wanderleia, Célia Villela, entre outros artistas da época.

Hoje, trazemos uma entrevista com Romir Andrade, ex-integrante do grupo e baterista dos discos de Roberto Carlos, até 1965. Batemos um papo com ele para saber como foi sua experiência e fatos curiosos daquele tempo e também para saber sobre o seu livro Memórias de um Baterista Canhoto, lançado recentemente. Veja a seguir:

Universo Retrô: Tratando-se do cenário musical, o que lembra com mais saudades daqueles tempos e o que gostaria de ter hoje que não tem mais e vice-versa?

Romir Andrade: Daqueles tempos, os bailes nos clubes, os shows e programas de TV, além da união fraternal dos músicos, antes da fama. Hoje, gostaria de ainda ter a presença de todos os amigos/irmãos da banda, uma vez que o Carlinhos e o GB estão tocando “no Astral”. E, ainda a amiga Celia Vilela, mulher do Carlinhos, a quem acompanhamos em seu programa na TV Rio e com quem gravamos o LP “F15 Espacial”.

The Angels

Integrantes do grupo The Angels em seu primeiro álbum em 1962, lançado pela Copacabana (Foto: Reprodução)

Universo Retrô: Você deixou de exercer a música profissionalmente em 1966, gostaria de comentar um pouco sobre esse assunto?

Romir Andrade: Eu estava para entrar no último ano da faculdade de Arquitetura (formei-me em 1967), e ficou difícil manter a batida de estudo, 2 estágios (empregos) e a música (ensaios, programas de TV, shows, gravações, que me obrigavam muitas vezes a só dormir 2 a 3 horas por noite. Além disso, havia muita discriminação da sociedade contra os músicos (músico era “vagabundo” e baterista “maluco”) e, até mesmo, parte de muitos outros músicos não consideravam baterista como músico, porque a pauta da bateria não tinha notas musicais, só símbolos e indicações de compassos (para mim não havia diferença porque eu nunca aprendi a ler pauta direto – não havia método, nem curso para baterista canhoto).

E, mais, observando a carreira de profissionais mais velhos, não era uma visão futura promissora. Como eu pretendia me casar, a manutenção de minha futura família, se mostrava muito difícil só com a música. Parar no auge do que um baterista jovem podia conseguir, foi uma decisão muito crítica! Eu larguei a música profissionalmente, mas, a música não me largou e me “assedia” através de composições que me vem “do espaço”. Tenho uma caixa e pratos, um bongô e um violão com que me divirto fazendo um som de vez em quando com amigos e tirando as harmonias das músicas que componho! Pretendo gravar este ano, um CD com parte delas (tenho umas 40 músicas inéditas), e, lançar um livro com as letras e poesias.

Memórias de um baterista Canhoto

Livro ‘Memórias de um baterista Canhoto’ (Foto: Divulgação)

Universo Retrô: Comente um pouco sobre seu livro.

Romir Andrade: Nós, “The Angels/The Youngsters”, tivemos uma participação ativa na fase pioneira do rock com gravações próprias (3 LP’s) e com arranjos e gravações, na formatação do som da Jovem Guarda com o Roberto Carlos (40 músicas, desde “Parei na Contramão”) e com outros artistas importantes na época – Célia Vilela, Reynaldo Rayol, Robert Livi, Sergei, Wanderlea, Jerry Adriani, Trio Melodia, Golden Boys.

Apesar de nossa participação ativa e real, pelo fato da banda ter parado em 1970 (eu fiquei de 1962 a 1966, e o resto da banda, com outra formação, até 1970), nós ficamos esquecidos! O Roberto Carlos nunca nos convidou para seu programa de fim de ano na TV Globo. Com eu estava trabalhando na área Arquitetura e da Construção Civil, não me importei muito com o fato.

Mas, meu filho Rodrigo, músico e luthier conhecido aqui no Rio, entre os músicos, principalmente de rock, me intimou a contar a história da banda. Como eu tinha muito material e fotos de recordação, escrevi o livro Memórias do Baterista Canhoto e lancei pela Editora Scortecci em maio de 2016. O livro está à venda nas principais livrarias do Brasil.

Universo Retrô: Conte-nos um pouco da experiência ou fatos curiosos, de gravar e trabalhar com The Angels nos primeiros discos de Roberto Carlos e outros artistas.

Romir Andrade: Em 1961 quando começamos, tocando em bailes, não haviam chegado no Brasil nem as guitarras nem os baixos elétricos e amplificadores. Havia apenas o violão elétrico, captador de contato “tipo cristal”, e o baixo era o “rabecão”. No primeiro show de “twist’ que fizemos, no início de 1962, na boate “Show Bar”, em Ipanema, Rio de Janeiro, tocamos ainda com o baixo acústico, o “rabecão”, mas, já tínhamos uma guitarra Giannini e outra, italiana, importada pelo Carlinhos.

Aí foi o ponto de origem da carreira do The Angels, pois as domingueiras ficaram famosas e ganhamos um programa na TV Continental: Encontro com os Anjos. Em seguida um contrato com a Gravadora Copacabana, onde gravamos os 3 LPs: The Angels Hully Gully, The Angels 7 Dias na TV e The Angels Happy Week End. Tocávamos na TV RIO acompanhando a Celia Vilela em seu programa próprio, e, participando do Programa “Hoje é Dia de Rock” com o Jair de Taumaturgo, tocando músicas da banda, e, acompanhando cantores que não tinham banda.

Quando estávamos gravando o LP 7 Dias na TV, fomos procurados pelo Roberto Carlos que nos convidou para acompanhá-lo na gravação de Parei na Contramão, Na Lua Não Há e mais duas faixas. Daí veio a parceria que seguiria com os LP’s É Proibido Fumar, Roberto Canta Para a Juventude e Jovem Guarda.

Curiosidades de gravações que conto no livro e que resumo aqui:

The Angels

Capa do álbum The Angels (Foto: Reprodução)

1 – COM THE ANGELS:

– LP “7 Dias na TV” – tínhamos que tocar músicas gravadas por orquestras famosas e que foram temas de filmes de séries conhecidas de TV.
– Faixa Theme from The Untouchables – Gravado pela orquestra de Nelson Riddle: a introdução era feita com tímpanos, e, nós éramos “5 gatos pingados” com uma bateria normal e um único canal para gravação. Desafiados pela Copacabana Discos, “inventamos”:

– Afinei três tambores com notas próximas às do baixo, e, fizemos a introdução em uníssono, imitando os tímpanos com baquetas de feltro.

– O Sérgio gravou em primeira passagem com o sax tenor. Depois, em “play back”, vocalizou com o sax barítono imitando um mini-naipe de sopro. Por sorte nossa a gravação saiu com volume parecido com uma orquestra.

– Faixa “Hawaiian Eye” – tema praiano tipo surf music.

Como não tínhamos uma guitarra havaiana, o GB fez “slide” na guitarra convencional com um vidro vazio de remédio. Eu alternei a bateria com o bongô em “play back”, para dar um clima tribal.

Nota: O GB repetiu esse efeito de “slide” com vidro de remédio, na faixa “Makaha Beach” (de autoria do GB e do Jonas) do LP “Happy Week End”.

COM ROBERTO CARLOS:

1 – LP É proibido Fumar e O Calhambeque, que fez sucesso no mundo inteiro, após várias tentativas de gravação normais, o Roberto quis que fosse gravado com violão acústico, baixo e bateria. Como só havia um canal (mono) na máquina AMPEX, a bateria “engolia” o som dos outros instrumentos. Após tentar de tudo com os tambores da bateria, e, foi tudo rejeitado pelo Roberto. No desespero, já pensando em ir embora da gravação, eu vi uma lata vazia de fita de gravação, no chão, ao lado da bateria.

Peguei-a e bati com as vassourinhas (“estranhas no ninho” do rock) para abafar o som. O Roberto gostou do som, e, o nosso amigo Marcilio Teixeira de Melo me socorreu segurando a lata vazia. Já, O Calhambeque teve uma gravação minimalista e improvisada com ritmo na batida levada numa lata vazia! Ninguém podia imaginar que a faixa com o Roberto Carlos ia estourar mundo a fora!

Roberto Carlos

Roberto Carlos com o grupo The Angels (Foto: Reprodução)

2 – LP Jovem Guarda, faixa Coimbra, gravada na segunda parte, em ritmo de calipso rock. Para não precisar de pandeiro, desmontei um pandeiro velho e preguei os pratinhos numa baqueta, e, quando eu batia no prato ela fazia o som de um pandeiro repicando no ritmo do calipso.

3 – Faixa Quero Que Vá Tudo Pro Inferno, com o propósito de variar mais uma vez as batidas, combinei com o GB fazermos uma batida com uma puxada, tipo vai e vem, que não era comum. O baixo e a guitarra base seguiram a ideia, e a batida ficou tão marcante que foi copiada pelas orquestras de baile substituindo pela nova batida lançada por nós, no Quero Que vá tudo Pro Inferno, a batida quadrada – Tata Tum, Ta Tum – que usavam tocavam o que eles entendiam por “rock”!

4 No LP Hully Gully, faixa Will You Love Me Tomorrow, o Sergio fez a introdução e o solo com um vibrafone que havia no estúdio da Copacabana.

Nota: Hoje em dia, escutando as gravações, mais como ouvinte, penso que o som da Jovem Guarda foi uma síntese de vários estilos musicais – jazz, blues, bossa nova, ritmos latinos, etc. – condensados em uma variante do rock.

Universo Retrô: Deixe suas considerações finais.

Romir Andrade: Fico muito honrado com a consideração que recebo de um músico jovem e talentoso como você, Jonatan Richard, e feliz por ver que a música transpõe barreiras de tempo e de gerações, transmitindo uma energia positiva que funciona em nós como bênção de uma verdadeira oração! Valeu, amigo Joanatan!

SERVIÇO
O livro Memórias do Baterista Canhoto pode ser adquirido no valor de R$ 40, nas seguintes livrarias:
1 – Livraria Asabeça
2 – Livraria Cultura
3 – Livraria Martins Fontes
4 – Livraria Travessa

Ou direto com o autor pelo e-mail romir.andrade@uol.com.br ou WhatsApp: (21) 99263-2533

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