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A história por trás do maior sucesso de Dick Dale

20 de março de 2019, por Zahrah Violet
Música
Dick Dale

No último domingo, veio a público que Richard Monsour, o lendário guitarrista considerado o pai da surf music, mais conhecido por seu nome artístico Dick Dale, morreu aos 81 anos, em 16 de março de 2019.

Para a Surf Music, Dick Dale é o princípio de tudo e influenciador de gerações de músicos até os dias de hoje. Filho de pai libanês e mãe polonesa, criou um novo estilo musical ao traduzir o som das ondas do mar com a guitarra e introduzir no rock as linhas melódicas e escalas orientais, provindas de sua ascendência árabe.

O INÍCIO DE SUA CARREIRA

Iniciou sua carreira nos anos 50 tocando informalmente, mas atraía tanta gente para assistir suas performances nas praias de Balboa, que chamou a atenção de ninguém menos que Leo Fender, sim, o criador das guitarras mais famosas do mundo, que decidiu pedir para que Dale experimentasse um modelo que acabara de criar: a Stratocaster!

O músico simplesmente virou-a ao contrário e tirou um som nunca ouvido antes. Não contente, ainda criou um novo tipo de transformador, inventando assim o primeiro amplificador para guitarras capaz de atingir nada menos que 180 watts, batizado como Dual Showman.

Após vencer um concurso de covers de Elvis Presley em 1956, Dick Dale passou a dedicar-se profissionalmente à música – que até então vinha sendo uma diversão, mesmo ele tocando piano desde os 9 anos de idade e revelando-se um gênio criativo e inovador – e gravou em 1962 seu primeiro álbum, Surfer’s Choice, pelo selo Capitol Records.

Dick, alcançou projeção no cinema através da trilha sonora do filme A Swinging Affair, de Gunter Collins, de 1963, onde aparece acompanhado de sua banda, The Del Tones, executando Misirlou.


Dick Dale and The Del Tones em cena do filme “A Swinging Affair”

Mesmo com o grande sucesso, a mania da Surf Music é rapidamente engolida pela Invasão Britânica, e Dick Dale entra em um hiato a partir de 1965, após um diagnóstico de câncer. Porém, volta a trabalhar em 1993, agora com a banda Psychefunkapus e, em 1994, Quentin Tarantino utiliza Misirlou como tema do seu filme Pulp Fiction, colocando o músico e sua versão ímpar para este clássico novamente nas paradas de sucesso.

A HISTÓRIA POR TRÁS DA CANÇÃO

Mas você conhece a história por trás desta canção? Apesar de sua interpretação virtuosa, brilhante e que ficará para sempre na história da música, é um erro afirmar que Misirlou é de autoria de Dick Dale, conforme alguns veículos têm informado.

Misirlou é uma canção de amor grega datada de 1927, composta por Michalis Patrinos, no estilo Rebetiko – gênero específico de música popular grega da região de Smyrna – com o ritmo Tshiftitelli. Minhas companheiras de dança irão entender bem essa palavra exótica, porém, familiar, mas que é estranha para quem a lê pela primeira vez.

É um ritmo de compasso 8/4 (sim, um pouco diferente para ouvidos acostumados à música ocidental), executado de forma lenta, de origem grega, que foi incorporado também à música árabe. A primeira gravação de Misirliu da qual se tem conhecimento aconteceu na Grécia, em torno de 1930.


Interpretação de Misirlou em estilo Rebetiko. Encontrei esta versão em alguns locais no Youtube e arquivos, como sendo original de 1927, porém eu não posso afirmar se é uma versão remasterizada ou uma reprodução.

Misirlou significa “garota egípcia” em grego. É uma palavra de origem árabe, Misr = Egito, e sua letra original traz em si elementos comuns às canções românticas árabes, como enaltecer a beleza dessa mulher que encanta com sua magia, fazendo referências ao brilho de seus olhos, ao negro da noite, diferente do Rebetiko tradicional, que traz uma questão mais social em suas letras.

Em 1931, Patrinos viaja a Nova York para uma nova gravação com Titos Dimiadris. Em 1941, o músico Greco-Americano Nikos Roubanis simplesmente registrou Misirlou como se fosse composição sua. Devido a isso, até hoje encontramos os créditos variando entre Michalis Patrinos e Nikos Roubanis. Na realidade, Roubanis apenas gravou com um novo arranjo, mas mesmo assim no ocidente é reconhecido como seu compositor.

Ainda há relatos que afirmam que a composição original sequer seja de Patrinos, e sim de um músico anônimo que passou pelo conjunto de Rebetiko, a deixou pronta e ficou por isso mesmo, tendo Patrinos apenas se preocupado em realizar suas gravações, sem sequer reivindicar autoria.


Arranjo de Nikos Roubanis para Misirlou, datada de 1941

Ainda nos anos 40, Misirlou ganha uma versão árabe pelo maestro Clovis el-Hajj, que recebeu o nome Ya Amal (Minha Esperança) e uma letra em inglês por Milton Leeds, Bob Russel e Fred Wise, compositores em evidência na época, e prossegue sendo interpretada e gravada por artistas dos mais diversos gêneros. Entre muitos músicos que gravaram com essa nova letra, temos uma interpretação do Chubby Checker de 1962, vale a pena conferir!

Chegamos enfim ao ano de 1962, quando voltamos ao início de nossa matéria e Dick Dale reinventa e imortaliza Misirlou, que ganha também uma versão dos Beach Boys no ano seguinte, antes da queda da Surf Music, dando aqui uma de Tarantino e brincando com a ordem cronológica dos fatos! E, revisando, Dale e Misirlou são relembrados por ele através do hoje amplamente cultuado Pulp Fiction, de 1994.

O curioso é que, para quem assistiu ao filme é muito óbvio, mas Misirlou toca durante os primeiros créditos, após a cena do restaurante, e volta e meia me deparo com alguém associando a música à cena do concurso de dança, na qual rola, na verdade, You Never Can Tell, de Chuck Berry.

Fato deve se dar por serem dois ícones tão fortes que fica quase impossível não associar, mesmo sendo pontos distintos do filme. Ou talvez pelo dom que o eterno motherfucker tem de entrelaçar cada detalhe, mas deixemos mais sobre Quentin Tarantino para uma próxima!


Tema do Filme Pulp Fiction e créditos de abertura

Mais um equívoco que localizei recentemente sobre Misirlou e que me vejo no dever de corrigir antes de encerrar esta foi “Ele compôs a música do Black Eyed Peas”. Primeira parte totalmente destrinchada, vamos à segunda: O Black Eyed Peas não regravou Misirlou, após o sucesso em Pulp Fiction eles samplearam alguns trechos e utilizaram em Pump It.

Em 2004, Misirlou é selecionada pelo Comitê Olímpico como uma das mais influentes músicas gregas de todos os tempos e é interpretada por Anna Vissi na cerimônia de encerramento das Olimpíadas de Athenas.


Anna Vissi na Cerimônia de Encerramento das Olimpíadas de Athenas, 2004

Como disse no título, iríamos falar sobre Misirlou, um clássico ainda hoje interpretado por tantos artistas que se torna impossível enumerar todos, porém não devemos nos esquecer do legado deixado por Dick Dale, que usou a sua Stratocaster “The Beast” e o Dual-Showman até seus últimos dias, e, mesmo durante os anos em recesso, teve lançadas coletâneas, foi nomeado para um Grammy e Induzido ao Surfing International Hall of Fame.

Sua discografia conta com 9 álbuns de estúdio, 3 ao vivo oficiais, 14 singles, com trabalhos autorais que fizeram dele uma referência para gerações de guitarristas, que vão de Jimi Hendrix a quem ainda está chegando. Então, Hendrix, acho que ainda se ouvirá muito Surf Music sim, mas outra nave partiu daqui rumo à terceira rocha do Sol!

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