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Conheça a história da cortesã mais famosa de Veneza no século 16

2 de março de 2016, por Jessi Malva de Moura
Lifestyle

Catherine Mc Cormack interpretou Veronica no filme “Dangerous Beauty” (Foto: Reprodução)

A Veneza do século 16 era uma cidade farta, cosmopolita e fervilhante, famosa pela beleza e estilo de suas mulheres. Como local chave para o comércio entre a Europa e o Oriente, a República de Veneza não só era acariciada pela fortuna como tinha acesso às novidades, influências e luxos de outros lugares.

Nela, abundavam os perfumes, as especiarias, os tecidos ricos, os cosméticos, as joias e uma grande alegria de viver. A chamada “joia sobre as águas” era um paraíso de hedonismo e, em seus palácios, celebravam-se as artes, a cultura… e festas esplêndidas.

Criadas como pérolas raras entre toda essa ostentação, as mulheres venezianas representavam o cúmulo do chique decadente – foram elas que criaram a moda de “lavar a cabeça” (leia-se, pintar o cabelo) ao sol, criando as famosas nuances acobreadas do louro veneziano.

Entre elas, destacavam-se as famosas cortegiane (cortesãs), mulheres deslumbrantes, de fina educação, que serviam de companhia para os venezianos poderosos e dos forasteiros privilegiados que pudessem pagar pelo serviço.

“Quando nós (mulheres) somos dotadas de treino e armas, podemos convencer os homens de que temos mãos, pés e um coração como o deles; e embora sejamos delicadas e frágeis, alguns homens delicados também são fortes; e outros, bruscos e grosseiros, são covardes.  As mulheres ainda não se aperceberam disto (…) E para o provar, eu própria começarei por dar o exemplo.” – Veronica Franco

Retrato de Veronica Franco

Retrato de Veronica Franco, atribuído a Tintoretto (Foto: Reprodução)

As mulheres, que se dedicavam a essa vida, dividiam-se em duas classes: a cortigiana oneste (“cortesã honesta” ou “honrada”) e a cortigiana di lume, a prostituta comum. Entre as garotas da primeira designação, Veronica Franco foi talvez a mais famosa.

Nascida em 1546, Veronica Franco era filha de uma cortesã aposentada, Paola Fracassa, que insistiu para que a filha recebesse educação igual a dos seus três irmãos. Ela estudou com professores particulares – um privilégio vedado às meninas de boas famílias, educadas apenas para o casamento.

Já na adolescência, Veronica se casou com um médico abastado, mas a união foi um fracasso e Veronica pediu o divórcio. A lei, no entanto, determinava que a mulher que tomasse tal iniciativa perdia o direito ao dote que lhe fora prometido.

Sem recursos e com um filho para sustentar, a moça decidiu seguir as passadas de sua mãe, empregando a educação que havia recebido numa carreira de cortigiana onesta. Então, aos 20 anos, figurava no catálogo “di tutte le principale e più honorate cortigiane di Venezia”, um documento que apresentava os retratos, descrição e honorários das mais famosas cortesãs de luxo de Veneza.

Seu êxito foi tão grande que pouco depois já conseguia sustentar uma casa enorme, incluindo vários sobrinhos, os filhos que foram surgindo (teve seis, mas apenas três sobreviveram), muitos empregados e professores para as crianças.

Veronica Franco

1º volume de poesia, Terze Rime (Foto: Reprodução)

Aos 25 anos, no auge do sucesso, juntou-se ao salão literário de seu patrono Domenico Venier, poeta e magnata, tornando-se membro dos “literati venezianos”, onde participava de discussões e antologias – como poetisa e editora. Em seguida, em 1575, publicou Terze Rime, uma coleção que incluía 17 poemas da sua autoria e versos dedicados à ela.

Muitos dos textos de Veronica Franco celebravam abertamente à sua condição de cortesã e tinham um conteúdo atrevido; outros defendiam os direitos de sua classe e das mulheres de modo geral, ou respondiam às tentativas de provocação a ela dirigidas.

Veronica era, ainda, uma intérprete talentosa: sábia musicista, tocando admiravelmente alaúde e spinetta (uma versão anterior do cravo). Com uma mistura de esperteza, ousadia, inteligência e discrição, a garota revelava-se defensora de uma certa moral e modéstia femininas.

Em suas cartas, publicadas em 1580, reprimia a mãe, que tentava fazer da filha uma cortesã, e lamentava que certas modas muito provocantes fossem usadas pelas jovens. O seu triunfo, porém, seria encoberto por várias desgraças.

Durante um surto de peste, Veronica foi obrigada a deixar a cidade por dois anos. Quando regressou, viu os seus bens saqueados. Mais tarde, um pretendente despeitado denunciou-a à Santa Inquisição com falsos testemunhos de bruxaria – um problema comum para as cortesãs venezianas, frequentemente acusadas de corromper os bons costumes.

Eloquente, defendeu-se com graça e habilidade, ganhando a causa. Mas, a sua fortuna e reputação nunca se recuperariam do ocorrido. Até a morte levou uma existência relativamente obscura, pouco facilitada pelos seus conterrâneos: viu ser recusado o seu projeto de criar um lar para mulheres desvalidas, cortesãs retiradas e seus filhos. Para a história, ficaram apenas os seus belíssimos poemas.

(Um desafio colocado a um amante)

Non piú parole: ai fatti, in campo, a l’ armi.
ch’ io voglio, risoluta di morire,
da si grave molestia liberarmi.
Non so se’ l mio « cartel » si debba dire,
in quanto do risposta provocata:
ma perché in rissa de’ nomi venire?

Mais conversa não! À liça, ao campo de batalha, às armas!
Pois resolvida a morrer, de grave mal me libertarei.
Não sei se lhe chame desafio, pois respondo a uma provocação
Mas porquê duelar por causa de palavras?

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