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Black Divine: Miss Pool Party é a Pin-Up do Mês do Universo Retrô em editorial carnavalesco

5 de fevereiro de 2018, por Daise Alves
Moda
Black Divine

Iniciamos o mês de fevereiro da melhor forma possível! A nossa Pin-Up do Mês é Paula Renata, também conhecida como Miss Black Divine, ganhadora do Concurso Miss Pool Party que aconteceu na Pool Party Retrô, a festa de verão do Universo Retrô, em dezembro do último ano.

Depois de ter participado de diversos outros concursos e ter conseguido posições de destaque como 5º lugar no Miss Pin Up The Sailor 2014, e 2º lugar nos anos de 2015 e 2017 no mesmo concurso, além de 3º lugar no Concurso de Melhor Penteado Retrô na festa de dois anos do Universo Retrô, a Rockterapia, essa é a primeira vez que oficialmente a nossa pin-up fica em primeiro lugar em um concurso, além de também ser a primeira negra a ganhar esse tipo de competição.

Miss Black Divine

Miss Black Divine emocionada ao ganhar o Concurso (Foto: Juliana Jota)

Ela que subiu no pódio ao lado de outras 2 representantes negras (Jessica Pink e Talita Cardoso) e uma latina (Ana Carolina), mostrou que esse também foi o concurso com mais participantes negras, que foram em peso mostrar a força de sua representatividade.

Entre as premiações para a primeira colocada, uma delas era um ensaio fotográfico produzido pelo projeto The Pin Up Maker e divulgado com exclusividade no Universo Retrô. Aproveitando a temática do mês de fevereiro, o editorial carnavalesco, inspirado nas comemorações do início do século XX, trouxe a tropicalidade do Brasil reforçada com a personalidade da nossa modelo, que usa um biquíni Bananaland que representa bem a cultura brasileira.

Para complementar o editorial, fizemos uma entrevista com a nossa musa, que fala sobre suas inspirações, preconceitos e representatividade negra na cena vintage. Confira:

Miss Pool Party Retrô

Finalistas Miss Pool Party Retrô (Foto: Juliana Jota)

Universo Retrô: Você começou a se dedicar ao estilo pin-up em 2010 em uma época em que ainda não estava tão difundido. Como surgiu seu interesse pelo estilo?

Miss Black Divine: Nesse ano, comecei no meu primeiro curso da área de moda, que foi o de Desenho de Moda, e a professora que era apaixonada pelas pin-ups passou um trabalho onde tínhamos que desenhar looks desse estilo. Como eu não sabia o que eram (pelo menos não por nome), comecei uma pesquisa e foi batata, me apaixonei assim que vi as primeiras imagens. Lembro dela dizer que todo ano ela passava esse mesmo tema e sempre tinha alguém da sala que também se apaixonava, daquele ano, tinha sido eu.

Universo Retrô: Em 2014 você começou a participar de Concursos de Pin-Up, sendo a primeira negra a se candidatar. Como você se sentiu sendo a única negra a participar desse tipo de concurso?

Miss Black Divine: No começo eu até achei legal ser a primeira e quebrar o padrão, não foi à toa que fui com o cabelo totalmente solto e na textura “natural” (estava em transição capilar na época) e apesar de não ter público torcendo por mim, consegui uma boa colocação para quem não era conhecida.

Mas tive que escutar que a pele branca e o cabelo com “cachos perfeitos” (o que certamente estavam falando de um cabelo liso com babyliss) era uma das caracteristicas para ser uma pin-up, repórteres falaram isso enquanto me entrevistavam e pessoas da cena diziam a mesma coisa, nem sei se eles reparavam no que falavam, mas eu reparei e depois de um tempo essa questão foi me martirizando.

É difícil crescer escutando e lendo que o seu cabelo e pele não fazem parte do que é bonito ou que não combinam com alguma coisa e mesmo tendo consciência do porque eles falavam aquilo, foi difícil seguir sozinha. Por isso me afastei em 2016.

Pin-Up Miss Pool Party Black Divine

(Foto: Emily Attarian)

Universo Retrô: Após perceber que não tinha representatividade no meio, você se afastou do estilo, mas voltou em 2017 com força total. O que fez você voltar?

Miss Black Divine: O que me fez voltar foram as mensagens e o apoio de mulheres negras que diziam se inspirar em mim. O tempo que eu fiquei sem seguir o estilo foi bem triste, porque eu sempre via fotos de pin-ups nas redes sociais, mas eram sempre brancas, e receber tanta mensagem e carinho de quem se sentia do mesmo jeito que eu estava me sentindo, foi muito importante. E foi ai que decidi voltar, eu era a única nos concursos e quando decidi não participar mais, não teve nenhuma. Então, por mais que me doe ser a única, não ver nenhuma doeu muito mais.

Universo Retrô: Desde quando você começou até hoje, mesmo que ainda pequeno, a representatividade de garotas negras adeptas ao estilo vintage tem crescido. Para você, o que tem motivado essas meninas a também usarem  o estilo retrô e quais são suas maiores dificuldades?

Miss Black Divine: Acho que foi verem que não estão só, por mais que gostamos de algo é difícil seguir quando não vemos ninguém iguais a nós. Ano passado, na minha volta, eu soube depois, que me chamaram de pin-up favelada, por alguém que eu nem conheço e muito menos deve me conhecer, falou isso por puro racismo e eu sei que continuei em frente porque não estava mais só. Mas apesar de estarmos conhecendo cada vez mais meninas iguais a nós, as marcas não mostram isso, então é como se não existíssemos.

Miss Pool Party Black Divine

(Foto: Emily Attarian)

Universo Retrô: Depois de participar de diversos concursos e até ficar entre as 3 primeiras, foi mesmo na Pool Party Retrô do Universo Retrô que você conseguiu a faixa de primeiro lugar, ao lado de duas outras garotas negras e uma latina. Como foi esse momento para você e o que ele representa para você e todas as garotas negras do movimento.

Miss Black Divine: Tudo que eu passei e escutei não só na cena, mas antes de entrar nela também, passou pela minha cabeça naquele momento. Por isso quando toda a festa começou a gritar e me aplaudir, a única coisa que consegui fazer foi chorar. Nós negros crescemos escutando que a beleza só está naquilo que é oposto ao que somos, temos nosso trabalho desacreditado por causa da nossa pele e cabelo.

Depois que fiquei pensando no que aconteceu e não sabia expressar em palavras o que esse título significava. Lembrei do discurso que Viola Davis fez quando ganhou o Emmy de melhor atriz dramática em 2015, que se encaixa perfeitamente no que senti e continuo sentindo:

“Na minha mente eu vejo uma linha. E além dessa linha eu vejo campos verdes, flores lindas e belas mulheres, brancas, com seus braços esticados tentando me alcançar além daquela linha, mas eu não me vejo e não sei como chegar lá. Eu não consigo passar daquela linha. Harriet Tubman, 1800″…”E deixe-me dizer uma coisa: a única coisa que separa mulheres de cor de qualquer outra pessoa, é a oportunidade”.

Esse título representa mais uma porta aberta para todas mulheres negras do movimento, agora vemos que podemos sim ser uma pin-up como qualquer outra, espero que nos próximos concursos, o número de participantes negras aumente cada vez mais. Mas, não acham estranho um discurso de 1800 ainda se encaixar em falas de pessoas negras em pleno século XXI? Sim, gostamos de seguir o estilo de décadas passadas, mas não precisa imitar a segregação também.

Miss Pool Party Black Divine

(Foto: Emily Attarian)

Universo Retrô: Como uma das premiações, você ganhou esse ensaio produzido pela equipe do projeto The Pin-Up Maker. Aproveitando o tema de fevereiro, foi pensando em unir a sua brasilidade para fazer esse ensaio carnavalesco. O que acho do tema e como foi essa experiência para você?

Miss Black Divine: Não vou mentir, no começo fiquei meio com o pé atrás sobre o tema, porque um dos únicos momentos em que lembram que negros existem é quando o carnaval chega e eu cresci sendo chamada de mulata (o que sempre odiei, obviamente). Mas, depois de conversar com pessoas próximas, me lembraram que o carnaval é nosso mesmo, foi inventado por negros!

Ai me acostumei com a ideia e depois de ir conversando com a produção e vendo as ideias, me animei com o que podia sair do resultado, ainda mais quando disseram que eu poderia usar o meu figurino de Josephine Baker (outro ensaio que em breve será divulgado pelo The Pin Up Maker). Fiquei muito ansiosa com o dia das fotos e depois de descobrir que a Jessy seria a maquiadora então!

Acho o trabalho do The Pin Up Maker maravilhoso e sabia que não tinha como dar errado e foi simplesmente incrível essa experiência. Nunca havia feito fotos tão produzidas assim e com uma equipe tão incrível (mas só com mulheres, difícil não ser né? haha). Foi um dia muito divertido e prazeroso, só tenho a agradecer as profissionais!

Miss Pool Party Black Divine

(Foto: Emily Attarian)

Universo Retrô: Você se forma esse ano em Design de Moda e tem uma marca de moda afro retrô. Nos fale um pouco sobre sua marca e porque você decidiu investir nesse segmento.

Miss Black Divine: Desde quando decidi ter uma marca, eu sabia que o público alvo seriam pessoas negras, mas não sabia como juntar a moda afro com a retrô. Até que me dei conta que não existe moda retrô e vintage sem a cultura negra, pois a raiz de tudo está nela. E como ninguém fala disso, por que não eu?

Então misturo elementos da cultura afro brasileira atual, com a história da cultura negra de décadas passadas, como podem ver nos meus looks onde misturo modelagens do passado com tecidos africanos. Esse ano pretendo começar a confeccionar esse estilo de roupa para venda. Precisamos começar a dar os devidos créditos aos negros que fizeram história.

Universo Retrô – Quais suas inspirações de mulheres negras vintage e porque te inspiram?

Miss Black Divine: Josephine Baker, a primeira grande artista negra a ficar mundialmente conhecida; Dorothy Dandridge, a primeira mulher negra a ser indicada ao Oscar de melhor atriz e primeira a ser capa da revista Life; Eartha Kitt, primeira mulher negra a fazer o papel de mulher gato na série de tv do Batman; Sister Rosetta Tharpe, pioneira do rock (e pouco lembrada na cena brasileira).

Zelda Wynn Valdes, a primeira negra a abrir sua própria loja na Av Broadway, vestiu grandes nomes como algumas que citei e desenhou o figurino de coelhinha para a Playboy (também pouco citada), entre tantas outras, se eu for falar um pouquinho de cada, vai dar uma matéria só.

O que todas tem em comum (e que também tenho) e me inspira, é que elas foram as primeiras no que faziam de melhor e não puderam ser somente as grandes artistas que eram, também tiveram que lutar pela questão racial pra provar isso. É como na frase que dizemos no movimento negro “Ser negro, é ter que ser 3x melhor”. 

Miss Pool Party Black Divine

(Foto: Emily Attarian)

Universo Retrô – E entre as garotas negras da atualidade. Quem devemos seguir no Instagram?

Miss Black Divine: Nossa, são tantas! A minha rainha master suprema Angelique Noire, que foi a minha primeira inspiração de pin-up preta e de penteados no cabelo natural e tive o prazer de conversar diversas vezes depois que a mesma me marcou no seu desafio de penteados vintages!

@Ladyeccentrikb que tem um estilo de cair o queixo; @Iridessence, @brwnpaperdolli, @jennyrieu pretas e gordas maravilhosas; @theperlnoire rainha do burlesco e @velvet.jones também dançarina burlesca. @angeldemure que conheci no Instagram no final do ano passado e também usa o cabelo natural em seus penteados e @misssweetclackpinup que ganhou o título de Miss Pin up da França, em 2017.

E entre as brasileiras: @ladyblackbird_ que é muito importante pra mim e uma das pessoas que me ajudou a voltar a cena e já tive o prazer de estar ao seu lado no palco 3 vezes, além de arrasar nos penteados vintages em tranças; @_jessy.pink que também me ajudou nessa volta e me mostrou o quanto eu amava ser uma pin-up, além de arrasar nos penteados e make; @blackxmermaid e @adorablemya quem disse que negras não podem ser trevosas? E @julianalousief preta e trans, e uma das pessoas mais doces que já conheci.

Universo Retrô: Para finalizar, deixe sua mensagem para todas as garotas que buscam representatividade.

Miss Black Divine: Às vezes é díficil seguir em frente quando nos vemos só, mas lembrem-se que em algum lugar, alguma garota está se inspirando em você. Seja você a representatividade!

FICHA TÉCNICA
Editorial: Carnaval
Produção: The Pin Up Maker
Maquiagem: Jess Pink
Cabelo: Juliana Boiger
Fotografia: Emilly Attarian
Figurino: Bananaland
Divulgação: Universo Retrô

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